STJ retoma julgamento de ex-governador do Acre com voto por condenação e caso paralelo na pauta
Caso Colorado, desmembrado da Operação Ptolomeu, entra na pauta como primeiro inquérito com denúncia formal analisada pela Corte Especial
A
Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) retoma na próxima
quarta-feira (6) o julgamento da Ação Penal 1.076/DF, que tem como réu o
governador do Acre, Gladson Cameli (PP). O processo, derivado da Operação
Ptolomeu, apura a existência de um suposto esquema de fraudes em contratos
públicos, com desvio de recursos e pagamento de propinas no âmbito da
administração estadual. Gladson renunciou ao mandato em 2 de abril — a vice,
Mailza Assis, assumiu o governo — para concorrer a uma vaga ao Senado. Apesar
disso, o caso foi mantido no STJ. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal
(STF) e do próprio tribunal prevê que a perda do cargo não desloca
automaticamente a competência quando os fatos investigados estão ligados ao
exercício da função e o processo já se encontra em fase avançada.
As
acusações incluem organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato,
fraude em licitações e lavagem de dinheiro. De acordo com o Ministério Público
Federal (MPF), o esquema envolveria processos licitatórios com indícios de
direcionamento e ausência de competitividade real, além da execução de obras e
serviços com sobrepreço.
Da
pauta de quarta-feira consta também o recebimento da denúncia referente ao
Inquérito 1.074/DF, conhecido como “caso Colorado”, uma das frentes
investigativas relacionadas a contratos sob suspeita dentro do mesmo conjunto
de apurações. A Corte Especial do STJ desmembrou as investigações da operação
em outros oito inquéritos, sendo o caso Colorado o primeiro a ter denúncia
formalizada para análise do colegiado.
A
denúncia contra o governador foi aceita por unanimidade pela Corte Especial em
19 de abril de 2023. Com isso, o caso passou da fase investigativa para a ação
penal, com produção de provas e oitiva de testemunhas. Tentativas da defesa de
anular o processo foram rejeitadas.
Segundo
a acusação, haveria uma organização criminosa estruturada dentro do governo do
Acre, com núcleos político, administrativo e empresarial, voltada ao
direcionamento de licitações, contratação de empresas com indícios de
favorecimento e execução de contratos com sobrepreço. Parte dos valores teria
sido ocultada por mecanismos típicos de lavagem de dinheiro.
Caso Colorado
A
Operação Ptolomeu consolidou-se como o principal eixo investigativo, reunindo
diferentes frentes de apuração sobre contratos públicos no Estado. Dentro desse
conjunto, o chamado “caso Colorado” aparece como um dos recortes analisados. De
acordo com a Polícia Federal, a empresa Colorado figura entre companhias
citadas em contratos considerados atípicos, ao lado de outras firmas que teriam
sido beneficiadas por licitações sob suspeita. As apurações indicam indícios de
simulação de concorrência, fragilidades na execução contratual e possível
sobrepreço. Até o momento, não há comprovação conclusiva de vínculo societário
direto entre a empresa e a família do governador.
Relatórios
da Polícia Federal apontam que o esquema investigado não se restringiria a
contratos isolados, mas a uma estrutura mais ampla, com atuação coordenada
entre agentes públicos, empresários e intermediários. Há indícios de
direcionamento de licitações, execução irregular de contratos e movimentações
financeiras que poderiam indicar circulação indevida de recursos públicos.
As
investigações também alcançaram o entorno político, empresarial e familiar do
governador. O pai, Eládio Messias Cameli, e o irmão, Gledson Cameli, são
citados em relatórios em diferentes contextos, como parte do mapeamento de
relações analisadas. Em uma das fases da operação, foram determinadas medidas cautelares
que incluíram a suspensão de atividades de empresas associadas a familiares.
Em
dezembro de 2023, o STJ desmembrou a ação, enviando os demais investigados à
primeira instância da Justiça Federal e mantendo no tribunal apenas o processo
contra o governador, em razão do foro por prerrogativa de função.
Em
17 de dezembro de 2025, a relatora do caso, ministra Nancy Andrighi, votou pela
condenação de Gladson Cameli. Ela afirmou haver elementos suficientes para
caracterizar a existência de uma organização criminosa estruturada no governo
estadual.
A
ministra fixou pena de 25 anos e 9 meses de reclusão, em regime inicial
fechado, além de multa e indenização ao Estado do Acre estimada em cerca de R$
11,7 milhões. O voto também prevê a perda do cargo de governador e efeitos
sobre os direitos políticos após o trânsito em julgado. Segundo a relatora, o
conjunto probatório indica direcionamento de contratos públicos, uso de
empresas intermediárias e movimentações financeiras destinadas à ocultação de
recursos.
Após
o voto, ainda na sessão de 17 de dezembro de 2025, o julgamento foi
interrompido por pedido de vista do ministro João Otávio de Noronha, revisor do
caso, suspendendo a análise por 93 dias.
A
retomada chegou a ser adiada em razão da pauta do tribunal e de novo recurso
apresentado pela defesa às vésperas do julgamento. Os advogados pediram o
desentranhamento de provas produzidas entre maio de 2020 e janeiro de 2021, com
base em decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF),
que reconheceu a nulidade de determinados elementos em outro processo.
A
relatora rejeitou o pedido de suspensão do julgamento e afirmou que os
relatórios de inteligência financeira (RIFs), citados pela defesa não foram
utilizados nem na denúncia nem em seu voto, não impactando a análise da ação
penal. Ainda assim, determinou o desentranhamento formal das provas.
Após
a decisão, a defesa apresentou embargos de declaração — recurso utilizado para
esclarecer pontos obscuros, contraditórios ou omissos de uma decisão judicial,
sem reabrir o mérito do julgamento.
A
acusação sustenta que Gladson Cameli teve papel central na sustentação política
do esquema. A defesa nega irregularidades, afirma que não há provas de
participação direta do governador e que os contratos seguiram os trâmites
legais, com fiscalização dos órgãos de controle.
