Fim da escala 6x1: o empregador não é vilão nem a Constituição é bandeira política
É difícil não enxergar
oportunismo eleitoral no fato de o governo apresentar, em regime de urgência e
às vésperas das eleições, um projeto que extingue a escala 6x1 — tida como uma
bandeira histórica dos trabalhadores. Após somar mais de 17 anos no poder, por
que somente agora essa pauta vem à tona? Parece mais uma cartada de última hora
do que um compromisso genuíno.
Parlamentares de esquerda que
enxergam a chamada “escala desumana” e retratam o empregador como vilão
poderiam observar o exemplo da empresa Havan. Seu fundador iniciou a trajetória
como trabalhador comum, sem se queixar das jornadas de serviço. Com esforço e
dedicação, alcançou crescimento econômico e hoje se consolidou como um grande
gerador de empregos, demonstrando que a disciplina e a perseverança podem
transformar realidades.
Não há registros de que seus
funcionários reclamem das escalas "desumanas" de trabalho; afinal,
eles não são parlamentares, mas trabalhadores que precisam sustentar suas
famílias. A Havan demonstra que uma relação equilibrada entre capital e
trabalho, voltada para o benefício de todos — empregador e empregado — pode ser
bem-sucedida dentro da jornada 6x1. Não há indícios de que a empresa explore
seus trabalhadores, nem de que estes se oponham à carga horária.
O trabalhador, em essência, busca
emprego para sustentar sua família, enquanto sindicalistas e parlamentares de
viés esquerdista preferem fomentar greves e discursos inflamados nas ruas,
incitando ressentimento contra os patrões. Se os trabalhadores da Havan têm
tempo para estar com a família, os demais das empresas privadas também têm.
Portanto, não é verdadeira a lógica de que o fim da escala 6x1 vai proporcionar
maior aproximação familiar e lazer. O que desagrega a família é o desemprego.
Segundo a Forbes Brasil,
micro e pequenos empresários são os mais pressionados pelo fim da escala 6x1,
já que terão de manter salários com menos horas trabalhadas, sem margem para
contratar novos funcionários. Estudos estimam que o impacto pode chegar a R$
158 bilhões por ano, afetando diretamente setores de comércio, serviços e
pequenas indústrias. Num país marcado por sério déficit de emprego, não faz
sentido — senão por viés eleitoreiro — o governo propor alteração
constitucional, sendo ele um dos signatários da escala consagrada e que vem
funcionando bem.
É perfeitamente democrático que a
jornada de trabalho na iniciativa privada seja uma prerrogativa do empregador e
do trabalhador, não do Estado ou dos sindicatos. O resultado desse embate
ideológico é preocupante: os micro e pequenos empreendedores não
suportarão o aumento da folha de pagamento e fecharão as portas ou reduzirão o
quadro. Já os grandes empresários repassarão o ônus ao consumidor por meio do
reajuste dos preços, e outros podem optar por transferir suas operações para
países vizinhos, como o Paraguai, em busca de um ambiente mais favorável ao
desenvolvimento econômico. "
Diante de um país com alto
índice de desemprego, soa inoportuno ou
eleitoreira a proposta que pode agravar mais a situação. Embora,
por exemplo, estudos da Unicamp indicam que jornadas menores podem gerar até
4,5 milhões de empregos e elevar a produtividade em 4%,
trata-se apenas de dados hipotéticos, baseados em projeções. Se
o cenário não se confirmar, o ônus recai sobre empresários, consumidores e
trabalhadores. É por isso que entidades como CNI e a Fiesp classificam a medida
como inoportuna: o risco de não se concretizar é alto em meio à crise de
emprego. Assim, a prudência recomenda que o Senado desaprove a matéria.
Júlio César Cardoso
Servidor federal aposentado
Balneário Camboriú-SC
