STJ torna Gladson Cameli réu em nova ação sobre fraude em obra da AC-405
O ex-governador do Acre, Gladson Cameli, voltou ao centro de uma nova ação penal no Superior Tribunal de Justiça dias após ser condenado a 25 anos e 9 meses de prisão em outro desdobramento da Operação Ptolomeu. A Corte Especial do STJ recebeu, por unanimidade, denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal no Inquérito 1674/DF, conhecido como Caso Colorado, por suposta fraude em licitação e desvio de recursos públicos na duplicação da rodovia AC-405, em Cruzeiro do Sul.
A relatora do processo é a ministra Nancy Andrighi. A movimentação mais recente ocorreu nesta quinta-feira, 14, com a disponibilização de intimação eletrônica dos acórdãos ao Ministério Público Federal.
A nova denúncia foi recebida um dia após a condenação de Cameli na Ação Penal 1076. Em 6 de maio de 2026, a Corte Especial do STJ condenou o ex-governador pelos crimes de organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação. No dia seguinte, o tribunal abriu nova frente criminal contra ele.
O Caso Colorado concentra as investigações na execução das obras da AC-405, considerada estratégica para Cruzeiro do Sul e municípios do Vale do Juruá. Segundo o Ministério Público Federal, o contrato superou R$ 46 milhões e teria sido direcionado para beneficiar a Construtora Colorado, apontada como ligada à família Cameli.
A denúncia foi apresentada pela subprocuradora-geral da República Luiza Frischeisen. De acordo com o MPF, os fatos investigados ocorreram em 2020, no início do primeiro mandato de Gladson Cameli. A acusação sustenta que houve “direcionamento planejado” da licitação para assegurar a vitória da empresa.
Segundo o Ministério Público, a construtora estava formalmente em nome de Linker Barroso Cameli, primo do então governador, mas seria controlada por Eládio Messias Cameli, pai do ex-governador. A Procuradoria afirma que Gladson Cameli teria atuado para fraudar o caráter competitivo da concorrência pública e garantir a contratação da empresa familiar.
A denúncia também aponta o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) como peça central da suposta engrenagem. Conforme o MPF, o então governador indicou aliados para cargos estratégicos no órgão e manteve ingerência direta em decisões administrativas relacionadas à obra, incluindo cronogramas de pagamento e atos de rotina contratual.
Entre os nomes citados pela acusação estão Petrônio Aparecido Chaves Antunes e Jander Huber Ferreira Nobre Júnior, apontados como integrantes do núcleo administrativo ligado ao Deracre e responsáveis por funções estratégicas na execução contratual e administrativa das obras investigadas.
As investigações tiveram apoio técnico da Controladoria-Geral da União. Segundo a acusação, uma nota técnica da CGU identificou manobras que teriam elevado artificialmente os custos da duplicação da rodovia. O órgão apontou sobrepreço de aproximadamente R$ 3,6 milhões e prejuízo efetivo estimado em ao menos R$ 1,5 milhão aos cofres públicos.
O Ministério Público também atribui ao ex-governador supostos benefícios pessoais decorrentes do esquema investigado. Durante a sessão da Corte Especial, Luiza Frischeisen afirmou haver indícios de que recursos públicos desviados foram utilizados para custear dívidas de um apartamento de luxo na Alameda Jardins, em São Paulo, além de uma reforma milionária na residência particular de Cameli, em Rio Branco.
Segundo a denúncia, os pagamentos teriam sido feitos por empresas ligadas à família do ex-governador logo após repasses estaduais à construtora investigada. Para a Procuradoria, o esquema permitia converter recursos oriundos de contratos públicos em patrimônio privado.
A AC-405 é uma das principais vias urbanas e de acesso da região de Cruzeiro do Sul. A duplicação da rodovia foi apresentada, à época, como obra estruturante para mobilidade, comércio e integração regional. Com o avanço das investigações, porém, o empreendimento passou a figurar no centro de uma das mais relevantes disputas judiciais envolvendo a política acreana recente.
Ao receber integralmente a denúncia, a Corte Especial do STJ entendeu haver elementos mínimos para abertura da ação penal e aprofundamento da instrução processual. O recebimento da denúncia não representa condenação, mas autoriza o prosseguimento do processo com coleta de provas, depoimentos e manifestação das defesas.
Parte das investigações relacionadas à Operação Ptolomeu foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2025. A Segunda Turma do STF concluiu que houve usurpação de competência do STJ em etapa das apurações conduzidas pela Polícia Federal. A decisão, entretanto, não interrompeu as ações penais já instauradasCom a abertura da nova ação penal, Gladson Cameli permanece no centro das principais investigações criminais envolvendo contratos públicos no Acre. O Caso Colorado amplia a crise judicial enfrentada pelo ex-governador e mantém sob análise do STJ suspeitas sobre o uso de obras públicas, estruturas administrativas e empresas familiares em supostos esquemas de favorecimento e desvio de recursos estatais.
