Das ruas de Rio Branco à Seleção: a travessia acreana de Weverton e o legado silencioso de sua mãe
Por Chico Araújo
Entre traves improvisadas no bairro Bahia Palheiral, em Rio
Branco, e a dureza de uma infância marcada pelas limitações financeiras, o
goleiro Weverton Pereira da Silva construiu uma trajetória que hoje simboliza
uma das histórias mais humanas e improváveis do futebol brasileiro. Antes das
grandes arenas, dos títulos nacionais e da consagração internacional, houve o
silêncio apertado das dificuldades, o suor de uma mãe acreana e a persistência
de um menino que se recusou a desistir.
Josefa Pereira nunca teve vida fácil. Empregada doméstica
durante boa parte da vida, criou os filhos praticamente sozinha, dividindo o
pouco que tinha entre Weverton, Viviane — hoje educadora física — e Uelinton. A
prioridade da casa era sobreviver. Sonhar parecia luxo distante para uma
família simples da periferia de Rio Branco. Josefa Pereira faleceu em 5 de
março de 2020, deixando um vazio profundo na família e uma saudade que
acompanha até hoje a trajetória do filho.
Quando Weverton dizia que queria ser jogador de futebol, Josefa
ouvia com carinho, mas também com o peso da realidade. “Tudo começou como uma
brincadeira. Toda criança sonha em jogar futebol”, relembrou ela anos depois.
No fundo, custava acreditar que aquele menino acreano, criado em meio às
dificuldades, pudesse alcançar o topo do futebol brasileiro.
Mas o garoto insistia. Jogava nos campinhos de barro do
bairro Bahia Palheiral, improvisava traves, treinava até cansar e demonstrava
desde cedo uma disciplina rara. Em 2002, ganhou a primeira oportunidade no
Juventus do Acre. Três anos depois, após boas atuações na Copa São Paulo de
Futebol Júnior, chamou atenção do Corinthians e precisou deixar Rio Branco rumo
a São Paulo — talvez o momento mais duro daquela caminhada.
Aos 17 anos, Weverton partiu levando uma mala pequena e um
medo enorme. Chorava ao telefone dizendo que queria voltar para casa. Do outro
lado da linha, Josefa também chorava, tentando esconder a saudade para não
enfraquecer o filho. “Ele chorava dizendo que não queria ficar lá, e eu chorava
daqui”, contou a mãe. Era a dor silenciosa de muitas famílias acreanas que veem
seus filhos partir em busca de oportunidades que o próprio Acre quase nunca
consegue oferecer.
Sem entender de futebol, empresários ou contratos, Josefa
precisou aprender na marra. Enquanto isso, o filho peregrinava longe dos
holofotes: Corinthians, Remo, Oeste, América de Natal e Portuguesa. Não havia
glamour. Havia luta, incerteza e resistência. Cada clube representava uma
tentativa de permanecer vivo no futebol e também de honrar os sacrifícios
feitos pela família.
Foi apenas anos depois, no Athletico Paranaense, que Weverton
encontrou estabilidade, reconhecimento e projeção nacional. O menino
desacreditado transformou-se em um dos goleiros mais seguros do país, chegando
à Seleção Brasileira e se tornando motivo de orgulho para o Acre inteiro.
Muita gente vibrou, se emocionou e sentiu orgulho ao ver sua
convocação. E não apenas pelos méritos esportivos. O acreano enxergou em
Weverton um pouco da própria história. Um homem simples, vindo de longe, criado
entre dificuldades, mas movido pela coragem de não desistir.
A trajetória do goleiro deixa uma lição que vai além do
futebol. Ensina que o povo acreano, acostumado a enfrentar enchentes,
isolamento, abandono histórico e tantas dificuldades, também carrega dentro de
si uma força silenciosa. Weverton representa exatamente isso: a resistência amazônica,
humilde e obstinada.
Sua caminhada lembra um dos trechos mais fortes e simbólicos
do Hino Acreano: “Sem recuar, sem cair, sem temer”. Uma frase que parece
resumir não apenas a história do goleiro, mas também a alma de um povo
acostumado a lutar contra as distâncias, as dificuldades e o esquecimento.
Porque o Acre aprendeu, desde os tempos da Revolução Acreana, a sobreviver pela
coragem.
Do campinho de barro do Bahia Palheiral aos maiores estádios
do mundo, sua trajetória mostra que nenhum sonho é pequeno quando existe luta,
dignidade e esperança. Cada defesa de Weverton carrega um pouco da alma acreana
— forte, simples, humana e resistente como a floresta que abraça nossa terra.
*Advogado, jornalista,
autor de Quando Convivi com os Ratos,
Sombras do Poder e Memórias de Um Repórter, todos pela Editora Social.