O Pilão
Por
Chico Araújo (*)
Sempre
achei curioso o esforço que algumas pessoas fazem para permanecer exatamente
como são. Não importa a quantidade de fatos, de experiências ou de tropeços. A
realidade bate à porta, toca a campainha, entra, senta no sofá e ainda oferece
provas. Mesmo assim, há quem consiga expulsá-la de casa com uma convicção
admirável.
Foi
por isso que simpatizei com um antigo autor bíblico que não desperdiçava
palavras. Em vez de escrever um tratado sobre a natureza humana, resolveu o
assunto com uma cena doméstica:
«"Ainda
que pisasses o tolo com um pilão entre grãos de trigo, contudo a sua estultícia
não se apartaria dele." (Provérbios 27, 22)»
É
uma metáfora de fazer inveja a muito cronista. O pilão foi inventado para
separar o que presta do que apenas o envolve. Funciona com arroz, milho, café.
Mas, diante da estupidez, declara-se impotente. É quase uma derrota da
engenharia.
O
interessante é que o tolo raramente percebe o próprio talento. Ele atravessa a
vida com a serenidade invejável dos que jamais foram perturbados por uma
dúvida. A incerteza costuma visitar quem pensa. No endereço dele,
aparentemente, nunca encontrou vaga para estacionar.
Passei
a desconfiar que a inteligência não mora nas respostas. Mora no incômodo.
Naquela pequena vergonha de descobrir que estivemos errados. Na disposição de
trocar uma certeza confortável por uma verdade inconveniente. Dá trabalho, é
claro. Pensar sempre deu.
Talvez
seja por isso que algumas conversas terminem antes mesmo de começar. Não por
falta de argumentos, mas porque um dos lados compareceu apenas para confirmar
aquilo que já decidira acreditar. A discussão vira um elevador com o botão do
térreo quebrado: faz barulho, consome energia e nunca sai do mesmo andar.
A
idade acaba ensinando um luxo discreto: escolher onde gastar o próprio sossego.
Nem toda opinião merece contraditório. Nem toda provocação merece plateia. Há
uma elegância silenciosa em deixar certas pessoas vencerem discussões que já
perderam para a realidade faz tempo.
No
fundo, o velho sábio de Provérbios não estava falando do pilão. Estava falando
da ilusão de que podemos mudar alguém à força. Há mudanças que só acontecem por
dentro. As outras fazem barulho, levantam poeira e, terminada a pancadaria,
deixam exatamente tudo no mesmo lugar.
(*)
Advogado, jornalista e escritor.