A ponte caiu. Quem responde?
Após o colapso em Sena Madureira, governo e construtora trocam acusações, perguntas centrais seguem sem resposta — e o Ministério Público do Acre é o único com investigação formal em curso
Por Chico Araújo*
A ponte Frei Paolino Baldassari desabou na noite de 5 de junho. Uma semana depois, o que há de concreto é o seguinte: quatro feridos, uma estrutura de R$ 36 milhões submersa parcialmente no rio e uma sequência de notas oficiais que, somadas, ainda não respondem às perguntas centrais sobre responsabilidade.
Para se ter a dimensão do que representa R$ 36 milhões em dinheiro público, uma estimativa baseada nos pisos salariais nacionais vigentes em 2025 ajuda a contextualizar: com esse valor, o governo do Acre poderia pagar 666 médicos com carga de 20 horas semanais durante um ano inteiro, ou 631 enfermeiros pelo mesmo período, ou ainda 1.000 professores de nível superior por 12 meses. Em salários mínimos, R$ 36 milhões equivalem a 23.716 remunerações mensais no piso nacional de R$ 1.518. Os valores são estimativas; os vencimentos iniciais efetivamente pagos pelo governo do Acre podem ser consultados no Portal de Transparência do Estado.
Das quatro vítimas do desabamento, duas receberam alta. Weverton Murieta, 34 anos, teve alta ainda no dia 6 de junho, em Sena Madureira. Antônio Morais Lima Filho, 36 anos, foi submetido a procedimento cirúrgico ortopédico com evolução satisfatória e também recebeu alta. Ednei Muniz, 51 anos, permanece internado sob cuidados da equipe de cirurgia devido à manutenção de dreno torácico, com quadro clínico estável. O caso mais grave é o de Edinaldo Muniz, 54 anos, ex-juiz aposentado, que segue na UTI do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco sob ventilação mecânica, em estado grave, com piora da função renal registrada nos exames mais recentes e sem previsão de novos procedimentos cirúrgicos.
O governo do Estado instaurou procedimento administrativo, o Ministério Público abriu investigação, a Polícia Civil iniciou perícia e a Assembleia Legislativa elevou o tom. As perguntas centrais — aquelas que definem responsabilidade técnica, contratual e administrativa — seguem sem resposta.
O homem que autorizou a obra
Há um personagem central nessa história que passou a semana à margem do debate público: o ex-governador Gladson Cameli (PP), responsável pela contratação da obra, pela assinatura da ordem de serviço em março de 2022 e pela inauguração da ponte em dezembro de 2023.
No dia 6 de junho, um dia após o desabamento, Cameli esteve em Sena Madureira, visitou um dos feridos e declarou à imprensa: "Quero garantir à população do Segundo Distrito que, enquanto eu estiver aqui como cidadão, seguirei lutando para que essa situação seja resolvida o mais rápido possível." Não há registro público de pronunciamento do ex-governador sobre sua responsabilidade administrativa pela contratação e execução da obra.
O contexto jurídico de Cameli é relevante. Em 6 de maio de 2026, a Corte Especial do STJ condenou Cameli a 25 anos e 9 meses de prisão em regime inicial fechado pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações — no âmbito da Operação Ptolomeu. Além da pena de prisão, o tribunal impôs multa, perda do cargo público e indenização de R$ 11,7 milhões ao Estado do Acre. A condenação tornou Cameli inelegível pela Lei da Ficha Limpa, impedimento que só poderá ser revertido caso obtenha decisão cautelar do STF antes do registro das candidaturas, previsto para agosto de 2026.
A tese da construtora e o silêncio do Estado
No dia 8 de junho, três dias após o desabamento, a Construtora Cidade Ltda. divulgou nota atribuindo o colapso ao fenômeno de "terras caídas" — processo de instabilidade geotécnica associado a erosão e variações do nível do rio. A empresa afirmou ter identificado sinais de risco uma semana antes e recomendado formalmente a interdição total da ponte em 4 de junho, véspera do desabamento.
A tese, se confirmada pelos laudos periciais, reduziria a responsabilidade técnica da empresa sobre o projeto e a execução da obra. O problema é que nenhum órgão independente confirmou ou refutou essa versão até o momento. O laudo pericial da Polícia Civil ainda não foi concluído. O Deracre não divulgou qualquer avaliação técnica própria. E a governadora Mailza Assis, ao instaurar o Procedimento Administrativo de Responsabilização contra a empresa, o fez com prazo de 90 dias para conclusão dos trabalhos.
Nenhuma autoridade questionou publicamente se o projeto considerou o risco geotécnico específico daquela margem do Rio Iaco. O projeto da ponte, na modalidade integrada, ficou inteiramente sob responsabilidade da construtora.
A troca de fiscais que ninguém explica
Há um dado nos documentos do contrato que não foi mencionado em nenhuma nota oficial da semana. Em 25 de março de 2024, já após a conclusão da obra, a então presidente do Deracre, Orlanilda Ximenes Muniz — conhecida como Sula Ximenes —, assinou a Portaria nº 183/2024, revogando a equipe de fiscais original e nomeando quatro novos servidores para conduzir o recebimento definitivo da estrutura.
Os fiscais originais — designados pela Portaria nº 91/2022 — haviam acompanhado a execução da obra por dois anos. Os novos chegaram quando a ponte já estava concluída e em uso pela população. São eles os responsáveis técnicos por atestar que a estrutura foi entregue em conformidade com as exigências contratuais e legais.
Em uma semana de declarações, decretos e boletins médicos, nenhum pronunciamento oficial do Deracre ou do governo do Estado abordou esse ponto. Por que a equipe foi trocada? Quais vistorias os novos fiscais realizaram antes de assinar o ateste? O recebimento definitivo foi feito com o rigor técnico exigido pelo contrato? Essas perguntas seguem sem resposta.
O empresário que não precisa provar nada
Uma declaração que repercutiu na Assembleia Legislativa foi atribuída a um representante da Construtora Cidade — empresa cujos sócios-proprietários são Raul Leitão dos Santos, Roberto Leitão dos Santos e Nilton Leitão dos Santos. Publicada pelo portal Agazeta.net em 10 de junho de 2026, ao ser questionado sobre eventual rescisão contratual com o governo, o representante teria afirmado: "Nós não precisamos provar nada. Nós trabalhamos 25 anos aqui, fizemos quase todas as pontes do Acre. Se a governadora achar que tem que rescindir o contrato com a gente, nós não temos o que fazer."
A declaração provocou reação imediata na Assembleia Legislativa, que passou a cobrar investigações mais rigorosas. De um lado, um governo que atribui responsabilidade à construtora. Do outro, uma construtora que afirma não ter o que provar. No meio, a população do Segundo Distrito de Sena Madureira, que voltou a atravessar o Rio Iaco de catraia — como fazia antes da ponte existir.
O que falta
As respostas que esta reportagem não encontrou em nenhum pronunciamento oficial da semana
O laudo pericial que defina a causa técnica do desabamento. A confirmação ou refutação da tese das "terras caídas" por órgão independente. A explicação formal do Deracre sobre a substituição dos fiscais às vésperas do ateste definitivo. O registro das vistorias realizadas pelos novos fiscais antes de assinar o recebimento. A evolução do quadro clínico de Edinaldo Muniz, 54 anos, que segue na UTI em estado grave — cujos boletins médicos não foram mais divulgados publicamente após os primeiros dias. O pronunciamento de Gladson Cameli sobre sua responsabilidade administrativa pela contratação e execução da obra.
E a resposta à pergunta mais simples de todas: quem responde pela ponte?
Por ora, cada parte aponta para a outra. E a ponte segue no rio.
Esta reportagem é baseada em documentos oficiais aos quais este repórter teve acesso, num acervo que totaliza mais de 500 megabytes de dados. Entre os arquivos analisados estão o Contrato nº 011/2022, a Ordem de Serviço de março de 2022, o ofício da Construtora Cidade Ltda. de janeiro de 2024, a Portaria nº 91/2022, a Portaria nº 183/2024, medições de obra, aditivos contratuais e registros de fiscalização.
*Chico Araújo é advogado, jornalista e autor de três livros pela Editora Social: "Quando Convivi com os Ratos" (2024), "Sombras do Poder: As Vísceras da Corrupção no Acre expostas na Operação Ptolomeu" (2025) e "Memórias de Um Repórter: Entre o Mimeógrafo e o Centro do Poder" (2025).