STJ acata nova denúncia contra Gladson no “caso Colorado”
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Após
condenar o ex-governador do Acre Gladson de Lima Cameli a 25 anos e 9 meses de
prisão, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça recebeu por
unanimidade nova acusação ligada à Operação Ptolomeu e manteve medidas
cautelares contra investigados
A
condenação do ex-governador do Acre Gladson Cameli a 25 anos e 9 meses de prisão
pela Corte Especial do STJ, na quarta-feira (6), não encerrou os desdobramentos
da Operação Ptolomeu. Ao mesmo tempo em que formaram maioria para condená-lo
por organização criminosa, corrupção passiva, peculato, lavagem de dinheiro e
fraude em licitações na Ação Penal 1076, os ministros também decidiram, por
unanimidade, receber a denúncia no Inquérito 1674, conhecido nos bastidores
como “caso Colorado”, ampliando o cerco judicial em torno do núcleo familiar e
empresarial apontado pela investigação da Polícia Federal.
O
novo processo gira em torno do contrato nº 067/2021, firmado pelo Deracre
(Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e
Aeroportuária do Acre) para a duplicação da rodovia AC-405, no Acre, obra
avaliada em mais de R$ 36 milhões e vencida por consórcio liderado pela
Construtora Colorado, empresa atribuída ao grupo familiar de Gladson. Segundo o
Ministério Público Federal, a empresa estava formalmente em nome de Linker
Barroso Cameli, primo do ex-governador, mas seria controlada por Eládio Messias
Cameli.
Antes
do início do julgamento, o presidente da Corte consultou as partes sobre a
dispensa da leitura do relatório. A subprocuradora geral da República Luiza
Cristina Fonseca Frischeisen e o advogado de Gladson, Pedro Ivo Rodrigues
Velloso Cordeiro concordaram. Em seguida, a representante do Ministério Público
Federal sustentou que o caso Colorado é um desdobramento direto da investigação
que já resultou na condenação do ex-governador na AP 1076.
Na
sustentação oral, a subprocuradora afirmou que as provas reunidas demonstram
“um direcionamento planejado” da licitação, associado à ausência de
competitividade real entre os consórcios participantes. Segundo ela, mensagens
extraídas de celulares apreendidos indicariam que Gladson atuou para favorecer
a Colorado na concorrência pública.
“O
uso do cargo em benefício de familiares fica evidente”, afirmou a procuradora
ao citar mensagens recuperadas do celular de Linker Cameli. Segundo o
Ministério Público, o então governador teria encaminhado ao primo informações
sobre futuras obras e licitações, em um contexto no qual a Colorado “estava sem
contratos”.
A
acusação também sustenta que Gladson mantinha controle político sobre o Deracre
por meio de aliados próximos nomeados para cargos estratégicos, entre eles
Petrônio Aparecido Chaves Antunes e Jander Huber Ferreira Nobre Júnior. Para a
Procuradoria, o ex-governador extrapolava as atribuições de chefe do Executivo
ao interferir diretamente em pagamentos e decisões administrativas relacionadas
às obras públicas.
O
Ministério Público também descreveu um suposto esquema de desvio de recursos
públicos por meio de sobrepreço na execução da obra da AC-405. A denúncia se
baseia em nota técnica da Controladoria-Geral da União que apontou sobrepreço
superior a R$ 3,6 milhões e prejuízo estimado em ao menos R$ 1,5 milhão. De
acordo com a acusação, os valores inflados teriam sido operacionalizados por
meio de cobranças incompatíveis com o porte da obra e posteriormente
direcionados ao grupo familiar do ex-governador.
Entre
os elementos apresentados pela Procuradoria estão transferências financeiras
envolvendo empresas ligadas à Colorado e ao grupo empresarial da família
Cameli, além de pagamentos relacionados a imóveis atribuídos ao ex-governador em
São Paulo. Segundo a acusação, parte dos recursos públicos desviados teria sido
usada para quitar despesas particulares.
A
defesa de Gladson reagiu em tom duro. Durante quase uma hora de sustentação, o
advogado Pedro Ivo Cordeiro afirmou que toda a Operação Ptolomeu estaria
“contaminada na origem” por supostas ilegalidades na obtenção de Relatórios de
Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf. Segundo ele, a investigação teria
começado de forma irregular ainda na primeira instância, sem autorização judicial
válida contra autoridade com foro privilegiado.
“A
Ptolomeu decorre de um pecado original”, disse o advogado. Para a defesa, os
relatórios financeiros que deram origem ao caso já foram considerados ilícitos
em decisões anteriores, o que tornaria nulos os desdobramentos posteriores.
Pedro
Ivo também afirmou que a denúncia não descreve qualquer ato concreto praticado
diretamente por Gladson Cameli para fraudar a licitação. Segundo ele, a
acusação se sustenta apenas em “conjecturas” ligadas ao parentesco entre o
governador e os empresários investigados.
“O
máximo que se apresenta é uma mensagem avisando sobre uma futura licitação”,
afirmou o advogado. “Avisar alguém sobre uma concorrência pública não é crime.
Isso estimula a competitividade.”
A
defesa questionou ainda a ausência de perícia técnica sobre a obra da AC-405 e
criticou o uso de relatórios da CGU como principal base da denúncia. Segundo
Pedro Ivo, a investigação “recicla indícios” sem apontar ordens diretas, atos
administrativos específicos ou interferência comprovada do então governador no
processo licitatório.
Relatora
do caso, a ministra Nancy Andrighi rebateu as alegações da defesa logo no
início do voto. Ela citou decisão do ministro André Mendonça que rejeitou
questionamentos sobre os relatórios financeiros utilizados na investigação e
afirmou que a Corte Especial já reconheceu, em julgamentos anteriores, indícios
consistentes da existência de uma organização criminosa instalada no governo do
Acre.
Nancy
Andrighi descreveu a investigação como uma das mais amplas já conduzidas no
âmbito do STJ. Segundo a ministra, o inquérito original resultou em 90 mandados
de busca e apreensão, cinco mandados de sequestro de bens, 73 intimações e mais
de 1,6 mil laudos periciais e relatórios técnicos produzidos pela Polícia
Federal, Receita Federal e CGU.
A
ministra também relembrou que, em 2023, determinou o desmembramento do
inquérito principal da Operação Ptolomeu em oito novas investigações, entre
elas o chamado “caso Colorado”. Segundo ela, os elementos reunidos apontam para
uma estrutura dividida em núcleos político, familiar, empresarial e
operacional, destinada ao desvio sistemático de recursos públicos por meio de
contratos estaduais.
Ao
final da sessão, a Corte Especial recebeu por unanimidade a denúncia do
Inquérito 1674 contra Gladson Cameli, permitindo a abertura de nova ação penal
ligada à Operação Ptolomeu. Além disso, os ministros decidiram renovar medidas
cautelares impostas aos investigados, mantendo restrições patrimoniais e
processuais já determinadas no curso das investigações.