Três sinais do atual momento político brasileiro
Foto – Andreia Tarelow
Quero trazer aos amigos leitores
algumas considerações sobre o atual momento político brasileiro.
A primeira delas diz respeito ao Partido dos Trabalhadores,
que sempre afirma não ter relação alguma com os escândalos divulgados
diariamente na imprensa, mas que se opõe ou procura obstruir a instalação das
Comissões Parlamentares de Inquérito conduzidas pelo Poder Legislativo, não
querendo, por exemplo, a CPMI do INSS nem a do Master, seja votando contra,
seja criticando incisivamente.
Ora, se o PT e seus correligionários — deputados, senadores e
o próprio governo — não estão envolvidos nos escândalos, não precisam ter
receio da instalação de nenhuma CPMI, nem de seus desdobramentos, investigações
e convocações. É extremamente curioso que eles afirmem não estar vinculados aos
vergonhosos fatos que vêm sendo divulgados, mas não queiram que as investigações
sejam aprofundadas.
Um bom governo é aquele que procura saber tudo o que existe
de irregular para corrigir. Este é, pois, o primeiro aspecto que quero trazer:
a minha perplexidade diante do fato de o governo e seus apoiadores negarem
qualquer envolvimento com os escândalos noticiados, mas, ao mesmo tempo,
trabalharem e atuarem firmemente para evitar que as Casas Parlamentares
convoquem, ouçam depoimentos, apurem e obtenham informações dos envolvidos,
impedindo que o Poder Legislativo exerça sua função fiscalizadora.
A segunda reflexão que quero fazer é sobre a probabilidade de
que tenhamos dois candidatos conservadores nas eleições à Presidência da
República este ano: Flávio Bolsonaro e outro nome, sendo Ratinho Jr. o que
apresenta mais chances no momento. Caso se confirmem duas candidaturas, será
indispensável o estabelecimento de um pacto de não agressão entre ambos.
Um exemplo a ser seguido é o caso da eleição no Chile, onde
quatro candidatos conservadores disputaram a presidência contra um único nome da
esquerda, que acabou indo para o segundo turno. Naquela ocasião, os quatro
conservadores firmaram um pacto: aquele que avançasse para o segundo turno
receberia o apoio imediato dos demais.
Ora, no contexto brasileiro, este pacto de não agressão
significa que, havendo dois candidatos conservadores, estes possuirão um único
adversário comum: o presidente Lula.
Este pacto é fundamental para garantir que o candidato que
avançar para o segundo turno conte não apenas com o apoio partidário e
institucional do aliado, mas com a transferência da sua base de eleitores. Ao
evitar a agressão mútua, preserva-se a imagem de ambos e impede-se a geração de
ofensas e insultos que, no futuro, dificultariam uma aliança autêntica. Mais do
que uma trégua, esse pacto assegura que as críticas permaneçam voltadas ao
adversário comum, evitando que o eleitor se sinta confuso pela troca de ataques
dentro do seu próprio espectro ideológico.
Diante do cenário de duas candidaturas de oposição ao
presidente Lula, a estratégia mais eficaz seria a adoção desse modelo inspirado
na experiência chilena em primeiro turno. O objetivo central é pavimentar o
caminho para o segundo turno, garantindo que o candidato remanescente herde a
totalidade do capital político e a confiança dos eleitores do outro candidato.
A terceira e última reflexão que gostaria de trazer aos
amigos leitores é um dado extremamente relevante que circula no meio
jornalístico: a informação de que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF)
estão, no momento, decepcionados com o governo Lula. O movimento parece ser de
autoproteção: os magistrados buscam se afastar de qualquer responsabilidade
direta pelos rumos da gestão federal para preservar a imagem da Corte.
Essa percepção de distanciamento ganha força quando
observamos que diversos dos escândalos divulgados estão sob o exame do STF, do
Congresso Nacional e do ministro André Mendonça. A pressão se intensifica com a
atuação da CPMI do INSS e as movimentações em torno do Banco Master. Não sou
jornalista, mas a leitura que faço "nas entrelinhas" das colunas e
painéis políticos é a de que o presidente Lula tenta se eximir de
responsabilidades para não contaminar sua candidatura à reeleição.
Entretanto, há aqui uma contradição que não podemos ignorar.
Em 2022, muitos analistas apontaram que o STF e o TSE garantiram o pleito que
permitiu a eleição de Lula, inclusive restringindo a atuação de emissoras e
veículos alinhados ao então presidente Bolsonaro — como a Gazeta do Povo,
Brasil Paralelo, Rádio Jovem Pan e outros canais — que publicavam matérias
críticas, baseadas em fatos, mas que foram proibidas de circular.
Naquela época, houve uma blindagem institucional; agora,
nota-se uma tentativa de desvincular o Supremo de qualquer ligação com o
Executivo.
Enfim, são três pontos a serem refletidos pelos protagonistas
que formatarão o futuro das Instituições e do país.
Enfim, são três pontos a serem refletidos pelos protagonistas
que formatarão o futuro das Instituições e do país. É imperativo que se
compreenda a gravidade desse cenário, pois o equilíbrio entre os Poderes e a
transparência das ações governamentais constituem os pilares de sustentação do
Estado de Direito, sem os quais qualquer projeto de nação se torna frágil
diante das crises."
Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip,
Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e
Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do
Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades
Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia),
doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das
PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do
Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia
Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).