A INÉDITA VIRADA QUE CONSOLIDOU A VITÓRIA DA DEMOCRACIA NAS URNAS BRASILEIRAS

 

Fonte: Natacha Pisarenko / Associated Press (AP)

Urtiga do Juruá

Gontran Neto 26, outubro 2026

UM FEITO INÉDITO: A PRIMEIRA GRANDE VIRADA ELEITORAL

O revés de Lula no primeiro turno diante de Flávio Bolsonaro, por uma margem de 2,22 milhões de votos, foi o suficiente para calçar a extrema-direita e o oportunismo político em saltos altos vertiginosos. A soberba precoce, no entanto, ignorou um detalhe elementar: do outro lado do tabuleiro estava uma raposa política que não entrega os pontos.

A RESPOSTA VEIO DAS RUAS E DAS REDES SOCIAIS

A militância popular ocupou todos os espaços: jovens nas ruas, idosos mobilizados em defesa da democracia e de direitos históricos, e os fandoms da música pop articulados em peso na internet. Ao lado de atores da sociedade civil organizada, formaram uma frente ampla que fez o asfalto latejar em vermelho, devolvendo o oxigênio a um velho guerreiro pronto para desafiar a aritmética eleitoral.

UM FEITO INÉDITO: A PRIMEIRA GRANDE VIRADA ELEITORAL

O resultado foi uma virada histórica: uma arrancada monumental de mais de 10,3 milhões de votos em relação à etapa anterior, selando a vitória por uma margem cirúrgica de 4.430 votos. O bolsonarismo desidrata sob a luz do processo democrático. Que essa derrota sirva para dissolver, de vez, a base do obscurantismo e devolver um mínimo de civilidade ao debate político.

O JUS SPERNIANDI

Uma coisa é o legítimo direito de espernear dos derrotados; outra, bem diferente, é a incapacidade patológica de engolir uma humilhante derrota. Pior ainda é quando entra em cena o DNA golpista do clã Bolsonaro,  aquele mesmo inaugurado na malfadada intentona de Jair Bolsonaro e seus cúmplices. Agora, é Flávio Bolsonaro quem vem a público rejeitar o resultado das urnas, prometendo pedir a anulação do segundo turno sob o pretexto da prorrogação do horário de votação.

PEDIDO PARTILHADO POR AMBOS OS LADOS

Mas pasmem: a dita extensão foi solicitada por ambos os lados. A campanha de Lula acionou o Supremo Tribunal Federal pedindo mais duas horas devido a apagões e falhas graves no transporte público, sobretudo na Bahia e em São Paulo. Quase em uníssono, a chapa de Flávio Bolsonaro protocolou pedido semelhante para municípios castigados por temporais em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. Relator sorteado na Corte, o ministro Cristiano Zanin apenas atendeu às demandas conjuntas e ampliou a votação.

EM SUMA

A regra valeu para todos com o aval de ambos. O resto é puro delírio antidemocrático e, para isso, o choro é livre, mas querer justificar que a prorrogação da votação por 2h a mais, é o motivo por uma surra humilhante, além de ser um mau perdedor mostra o quão não aprecia a democracia.

E NO ACRE?

No Acre, aconteceu o esperado, conforme os números dos institutos de pesquisas, que mostravam números altos em prol da favorita, a governadora bolsonarista Mailza Assis (PP),  que foi reeleita com um 272.635 votos (66,21%), enquanto o bolsonarista, senador Alan Rick (Republicanos), com 139. 108 votos (33.79%).

URNAS ESVAZIADAS NA DECISÃO

Além da própria derrota no segundo turno da eleição no Acre, um dado chama a atenção pelo fiasco de Alan Rick. No primeiro turno, a distância entre ele e Mailza Assis já era de expressivos 76.901 votos; na rodada final, a desvantagem praticamente dobrou, saltando para 133.527 votos. Enquanto Mailza engordou sua contabilidade em mais de 53 mil votos, o senador conseguiu o feito de registrar 2.751 votos a menos do que no primeiro turno. Em suma: não herdou o espólio dos demais concorrentes e ainda viu escapar parte do seu próprio eleitorado. Como eles gostam de dizer sobre a esquerda, precisa fazer uma auto critica.

DESEMPENHO SOFRÍVEL

O desidrato ficou ainda mais evidente em redutos estratégicos como Cruzeiro do Sul. Aqui, Alan teve um desempenho sofrível: despencou dos 17.200 votos obtidos no primeiro turno para 14.773 no segundo. O recuo abriu uma cratera na disputa local, fazendo a diferença para a adversária saltar de 8.510 para 13.846 votos, impulsionada pelo crescimento de quase 3 mil votos da governadora reeleita no município.

O BARULHO DAS MÁQUINAS, O VAZIO DAS IDEIAS

Na véspera da eleição, os bolsonaristas de Cruzeiro do Sul — que não são poucos — resolveram encenar sua costumeira demonstração de força. Promoveram um buzinaço estridente: tratores, caminhões, caminhonetes de luxo, motos, bicicletas elétricas e um estoque inesgotável de arrogância motorizada rasgando o asfalto da pacata cidade.

GRITAM CONTRA LULA, MAS NÃO DISPENSAM O CONCRETO QUE ELE CONSTRÓI

O ápice do ridículo, contudo, ficou por conta do roteiro. O cortejo desfilou triunfante pela rodovia do Segundo Distrito e cruzou em peso a imponente Ponte da União, uma obra viabilizada e entregue pelo governo Lula. A hipocrisia sobre rodas foi completa: bateram no peito sobre uma estrutura de integração federal enquanto bajulam uma cartilha que, se dependesse dela, deixaria a população até hoje refém de balsas e catraias para atravessar o rio Juruá.

FESTA DO 13

Em uma explosão de alívio, coragem e puro clímax social, o coração de Cruzeiro do Sul foi tomado pelo vermelho para celebrar a festa do 13. Onde antes imperava o barulho arrogante dos motores da extrema-direita, ecoou o grito dos que não se dobraram: uma multidão que resistiu à pressão, manteve a espinha ereta e confiou na virada histórica até o último segundo.

EM PLENO TERRITÓRIO ADVERSÁRIO

A celebração lavou a alma de quem nunca negociou a esperança. Em pleno reduto "conservador", a praça pública lembrou aos donos do poder local que o voto popular não aceita cabresto, e que a alegria, quando brota da resistência, fala muito mais alto que qualquer trator ou carreta.

 


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