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PONTE CAI, CONTRATO FICA

 

Janelão/Reprodução

Após colapso da Frei Paolino, construtora segue à frente da maior obra em execução no Acre, um contrato de R$ 73,7 milhões para a construção da 6ª Ponte do Arco Viário; em cinco anos, empresa acumula cerca de R$ 170 milhões em contratos públicos no Estado

O desabamento parcial da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, colocou sob escrutínio a atuação da Construtora Cidade Ltda., responsável pela obra e atualmente detentora do maior contrato de infraestrutura em execução no Acre. Apesar do colapso, a empresa segue encarregada da construção da 6ª Ponte do Arco Viário, em Rio Branco, empreendimento de R$ 73,7 milhões financiado pelo Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata).

O acidente deixou quatro feridos. Entre eles está o juiz aposentado Edinaldo Muniz, que fazia uma transmissão ao vivo quando a estrutura cedeu. Também ficaram feridos o advogado Edinei Muniz, Antônio Morais Lima Filho e Weverton Murieta. Três vítimas foram transferidas para hospitais de Rio Branco.

Fundada em 1969, em Porto Alegre (RS), a Construtora Cidade chegou ao Acre há cerca de cinco anos e passou a integrar algumas das maiores obras de infraestrutura do Estado. Juntos, os contratos ligados à Ponte Frei Paolino, à ponte do Anel Viário de Brasiléia e Epitaciolândia e à futura 6ª Ponte do Arco Viário somam aproximadamente R$ 170 milhões em investimentos públicos.

Embora tenha instalado filial em Brasiléia apenas em 2021, a empresa já mantinha relações contratuais com o poder público acreano. Em 2016, a Justiça condenou o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) a pagar mais de R$ 3 milhões à construtora por serviços executados em contratos ligados à BR-364. A dívida, reconhecida pela própria autarquia, envolvia obras da ponte sobre o Rio Caeté e acessos ao município de Manoel Urbano.

O interesse sobre a atuação da empresa aumentou após o colapso da ponte sobre o Rio Iaco, ocorrido menos de 24 horas depois de sua interdição preventiva. Ainda assim, a construtora permanece responsável pelo principal contrato atualmente executado pelo Deracre.

A ordem de serviço da 6ª Ponte do Arco Viário foi assinada em 12 de fevereiro de 2026, durante o governo de Gladson Cameli, após licitação internacional financiada pelo Fonplata. O projeto prevê uma estrutura de 363 metros de extensão ligando a Estrada do Quixadá ao bairro Belo Jardim. Segundo o governo, a obra deverá beneficiar mais de 400 mil pessoas e gerar cerca de 500 empregos diretos e indiretos ao longo dos 24 meses previstos para execução.

Menos de dois meses após o lançamento da obra, Cameli renunciou ao cargo para disputar uma vaga no Senado. Em 6 de maio, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou o ex-governador a 25 anos e nove meses de prisão pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitações. A decisão também determinou a perda de cargo público, multa e ressarcimento de R$ 11,7 milhões aos cofres estaduais. A defesa contesta a condenação e busca revertê-la nas instâncias superiores.

Na mesma sessão, o STJ recebeu denúncia do Ministério Público Federal no chamado Caso Colorado, investigação sobre supostas irregularidades na duplicação da AC-405, em Cruzeiro do Sul. O recebimento da denúncia não representa condenação, mas autoriza a continuidade da ação penal.

A Ponte Frei Paolino Baldassari foi entregue em dezembro de 2023 ao custo aproximado de R$ 36 milhões. Com cerca de 232 metros de extensão, substituiu a travessia por balsa entre o Centro e o Segundo Distrito de Sena Madureira e foi apresentada como uma das obras mais importantes da história recente do município.

Pouco mais de dois anos após a inauguração, parte da estrutura desabou. O episódio ganhou repercussão adicional porque a ponte havia sido interditada totalmente menos de 24 horas antes do colapso.

Segundo o governo estadual, uma vistoria técnica identificou riscos associados ao fenômeno das chamadas “terras caídas”, processo erosivo característico da Amazônia capaz de comprometer margens, acessos e fundações. Documentos públicos consultados pela reportagem indicam que não havia registro de condenação estrutural formal da obra antes do acidente.

Nos dias que antecederam o desabamento, técnicos do Deracre e do Corpo de Bombeiros realizaram inspeções no local. Após a emissão de relatório de risco, a estrutura foi interditada diante do avanço da erosão nas margens do Rio Iaco.

Até o momento, não há laudo conclusivo sobre as causas do colapso nem definição oficial sobre eventual responsabilidade pelo ocorrido. As perícias em andamento deverão avaliar fatores geotécnicos, erosivos, aspectos de projeto e execução, além das condições de manutenção e fiscalização da estrutura.

A habilitação da Construtora Cidade para executar a 6ª Ponte do Arco Viário ocorreu em licitação concluída em dezembro de 2025. Pareceres técnicos do Deracre apontaram atendimento às exigências do edital, incluindo experiência em obras de grande porte sobre lâmina d'água, estruturas em balanços sucessivos, utilização de aço corten e execução de tabuleiros de grandes dimensões. O contrato foi firmado no regime semi-integrado, no qual a empresa responde tanto pela execução quanto pela elaboração do projeto executivo.

Antes da queda da Frei Paolino, a nova ponte de Rio Branco era tratada apenas como mais um grande empreendimento de infraestrutura. Após o desabamento, passou a integrar uma discussão mais ampla sobre planejamento, fiscalização, governança e gestão de recursos públicos no Acre.

Até agora, nenhuma conclusão técnica ou administrativa atribuiu responsabilidade à Construtora Cidade pelo colapso da ponte em Sena Madureira.

A empresa não se manifestou sobre os fatos relatados. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento.

 

 

 


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