Tribunal de Contas e Ministério Público do Acre firmam pacto pela defesa da dignidade sexual de crianças e adolescentes
O
Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) e o Ministério Público do Estado
do Acre (MPAC) assinaram, nesta terça-feira (27), um Protocolo de Intenções
para a implementação do Projeto de Atuação Interinstitucional de Proteção da
Dignidade Sexual de Crianças e Adolescentes.
A
assinatura ocorreu no gabinete da Presidência do TCE-AC e contou com a presença
da presidente do Tribunal, conselheira Dulce Benício; do vice-presidente,
conselheiro Ronald Polanco; e da diretora da Escola de Contas, conselheira Naluh
Gouveia.
Pelo
MPAC, participaram a procuradora-geral de Justiça, Patrícia do Amorim Rêgo; os
procuradores Oswaldo D’Albuquerque Lima Neto, que assume a chefia da
instituição no próximo dia 30 de janeiro; Sammy Barbosa; Kátia Rejane de
Araújo; e o corregedor-geral Celso Jerônimo.
O
acordo estabelece uma cooperação técnica entre as duas instituições, com foco
na fiscalização da ação estatal e na indução de políticas públicas mais
eficazes para a prevenção e o enfrentamento da violência sexual contra crianças
e adolescentes no Acre.
Dados alarmantes
Segundo
dados do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC/MS), o Acre
registrou, entre 2015 e 2024, mais de 36 mil casos de gravidez entre meninas e
adolescentes com idades de 10 a 19 anos. Em 2024, o índice de gravidez na
adolescência no estado chegou a 19,96%, percentual significativamente superior
à média nacional, de 11,43%.
No
início de janeiro deste ano, o TCE-AC promoveu reunião com representantes da
Secretaria de Estado de Educação para discutir estratégias de enfrentamento ao
problema.
A
conselheira Naluh Gouveia destacou a gravidade do cenário e a necessidade de
atuação conjunta.
“Dos
dez municípios com os piores índices de gravidez na adolescência do Brasil,
quatro estão no Acre: Jordão, Sena Madureira, Brasiléia e Tarauacá. Meu coração
se enche de esperança ao percebermos que estamos discutindo esse tema de forma
institucional e integrada”, afirmou.
Segundo
ela, o Tribunal prepara ações nos municípios do interior para ampliar o debate
junto aos órgãos públicos locai.
Atuação integrada
A
presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício, ressaltou a preocupação da
instituição com os dados de violência contra crianças e adolescentes, inclusive
com os casos que não chegam a ser oficialmente registrados.
“Temos
acompanhado com muita apreensão os elevados índices de violência contra
crianças e adolescentes em nosso estado, além da subnotificação dos casos, que
muitas vezes não são devidamente comunicados aos órgãos de investigação. Essa realidade
exige uma resposta institucional mais forte e coordenada”, destacou.
Para
a presidente, a união entre o Tribunal de Contas e o Ministério Público
fortalece a capacidade de intervenção nas políticas públicas.
“Quando
o Tribunal de Contas e o Ministério Público se unem nesse esforço, acreditamos
em um poder maior de transformação das políticas públicas, capaz de reduzir
estatísticas que são extremamente dolorosas para o nosso estado”, afirmou.
Fundamento constitucional
A
iniciativa está fundamentada no artigo 227 da Constituição Federal, que garante
prioridade absoluta à proteção da infância, e na Lei nº 13.431/2017, que dispõe
sobre a escuta protegida de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de
violência.
Entre
as diretrizes do projeto estão a atuação preventiva baseada em evidências, o
respeito às competências institucionais, a cooperação técnica entre os órgãos e
a centralidade da dignidade da criança e do adolescente, com atenção especial à
não revitimização das vítimas.
A
procuradora-geral de Justiça, Patrícia do Amorim Rêgo, classificou os índices
como alarmantes e reforçou o papel prioritário do poder público.
“Os
números são alarmantes e inaceitáveis. Crianças e adolescentes são prioridade
absoluta na Constituição, e isso deve ser a agenda da sociedade brasileira e,
sobretudo, dos órgãos públicos. O Acre, desde 2018, ocupa posições muito acima
da média nacional, o que revela uma situação gravíssima, ainda agravada pela
subnotificação dos casos de violência de gênero”, enfatizou.
Ela
destacou que o objetivo do protocolo é colocar o tema entre as prioridades
institucionais.
“O
protocolo estrutura uma série de ações de fiscalização e de implementação de
políticas públicas em diversas áreas”, explicou.
Novas estruturas
O
procurador Oswaldo D’Albuquerque Lima Neto, que assumirá a chefia do MPAC para
o biênio 2026–2028, anunciou a criação de uma nova unidade voltada
exclusivamente ao tema.
“Vamos
criar uma Subprocuradoria-Geral para tratar especificamente das questões
relacionadas às crianças e adolescentes, desenvolvendo ações prioritárias e
estratégicas”, afirmou.
Ações institucionais
O
Protocolo de Intenções prevê, como compromissos iniciais, a designação de
representantes institucionais, o compartilhamento de informações técnicas, a
criação de um Comitê Executivo Interinstitucional e a realização de estudos e
diagnósticos sobre a efetividade das políticas públicas voltadas à proteção da
infância.
A
iniciativa busca superar a fragmentação das ações estatais e enfrentar
problemas como a subnotificação dos casos de violência sexual e as falhas de
articulação entre os setores de saúde, segurança pública, assistência social e
educação.
O
documento terá vigência de 12 meses e servirá de base para a formalização de um
Acordo de Cooperação Técnica definitivo entre as instituições.
A
ação também está alinhada ao plano de gestão do MPAC para o período de 2026 a
2028, intitulado “Um MP em Todo Lugar”, que estabelece crianças e adolescentes
como prioridade absoluta das políticas institucionais e ainda com os Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Com
a parceria, o TCE-AC e o MPAC reforçam o compromisso constitucional de promover
uma atuação integrada, permanente e qualificada para assegurar a proteção
integral dos direitos de crianças e adolescentes no Acre.
Texto:
Andréia Oliveira e Yuri Marcel
