A força da sabedoria na política justa
Por Chico
Araújo*
Em Provérbios
8, 12-21, Salomão eleva a Sabedoria como princípio estruturante da vida social
e política. Ela não é mero ornamento intelectual, mas força vital que sustenta
o discernimento, a sagacidade e a reflexão. A Sabedoria denuncia o orgulho, a
soberba, o mau comportamento e a boca falsa, pois, como afirma o texto, “o temor a
YHWH é odiar o mal”.
No coração da
perícope, encontramos palavras que transcendem o tempo:
“Eu possuo o
conselho e o bom senso; a inteligência e a fortaleza me pertencem. É através de
mim que os reis governam e os príncipes decretam leis justas. Através de mim,
os chefes governam e os nobres dão sentenças justas.”
Aqui, a
Sabedoria é apresentada como fundamento da autoridade legítima. Max Weber, em
sua análise sobre dominação legítima, lembra que o poder só se sustenta quando
reconhecido como justo. Salomão antecipa essa reflexão: sem Sabedoria, o
governo degenera em tirania ou corrupção.
A Sabedoria
não oferece apenas poder, mas prosperidade enraizada na justiça:
“Os que me
procuram me encontrarão. Comigo estão a riqueza e a honra, a prosperidade e a
justiça. O meu fruto vale mais do que ouro puro, e a minha renda vale mais do
que prata de lei. Eu caminho pela trilha da justiça, e ando pelas veredas do
direito, para levar riquezas aos que me amam e encher os seus cofres.”
Essa riqueza
não é materialismo vulgar, mas fruto de uma ordem justa. Santo Agostinho, em A Cidade de
Deus, afirma que “sem justiça, os reinos não passam de grandes
latrocínios”. A Sabedoria, portanto, é o antídoto contra a degradação da
política em saque institucionalizado.
Do ponto de
vista sociológico, Émile Durkheim nos lembra que a coesão social depende de
valores compartilhados. A Sabedoria bíblica é esse valor comum que une fé,
ética e política. Sem ela, a sociedade se fragmenta em interesses egoístas.
Hannah Arendt, por sua vez, destaca que a política só é digna quando preserva a
dignidade humana; e é exatamente isso que Salomão anuncia: a Sabedoria anda
pelas veredas do direito, garantindo que prosperidade e honra sejam frutos da
justiça.
No Brasil
atual, marcado por crises institucionais, polarização e descrédito das
instituições, a perícope de Provérbios 8 é mais que uma lição espiritual: é um
chamado político e ético. A Sabedoria exige que governantes rejeitem a soberba,
o engano e a boca falsa — vícios que corroem a confiança pública.
A aplicação é
possível, mas depende de uma conversão cultural e política:
· Que líderes reconheçam que o poder não é propriedade pessoal, mas
serviço público.
· Que a sociedade compreenda que prosperidade sem justiça é ilusão.
· Que o temor a Deus, entendido como reverência ao bem e repúdio ao
mal, seja traduzido em políticas que promovam equidade, dignidade e verdade.
Como disse
Paulo Freire, “não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”. A
Sabedoria bíblica, aplicada ao Brasil, deve dialogar com saberes sociais,
científicos e populares, construindo uma democracia que não seja apenas formal,
mas substancial.
Assim,
Provérbios 8 nos lembra que a verdadeira riqueza de uma nação não está no ouro
ou na prata, mas na justiça que sustenta sua vida coletiva. Se o Brasil
escolher caminhar pelas veredas da Sabedoria, poderá transformar sua crise em
oportunidade, sua divisão em unidade, e sua política em serviço ao bem comum.
*Advogado,
jornalista e teólogo, autor de “Quando Convivi com os Ratos” (2024) e “Sombras
do Poder: As Vísceras da Corrupção no Acre na Operação Ptolomeu” (2025), e
“Memórias de Um Repórter – Entre o Mimeógrafo e o Centro do Poder” (2025), pela
Editora Social.