A eleição presidencial: três observações e uma sugestão
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Foto: Andreia Tarelow
Por Ives Gandra
Sobre
o resultado da eleição presidencial, faço três observações e uma sugestão.
A
primeira observação é a de que o Tribunal Superior Eleitoral passou a ser,
efetivamente, uma casa de tertúlias acadêmicas. O TSE estabeleceu as regras da
eleição, e essas regras foram alteradas, com o jogo em andamento, por um
ministro da Suprema Corte vinculado ao candidato que acabou vencendo — que o
indicou para o cargo e de quem foi advogado —, fazendo com que a segurança
jurídica deixasse de existir. Mais do que isso: o tribunal responsável pelo
processo eleitoral foi posto de lado, pois suas regras foram modificadas não
por ele, mas por outro.
Registro
que nada tenho contra o ministro Cristiano Zanin. Integrei, na PUC-SP, a banca
examinadora do doutorado de sua cunhada — que, aliás, se saiu muito bem —, de
modo que minha observação é exclusivamente jurídica.
A
segunda observação é a de que o ministro Zanin consagrou o princípio da
desigualdade, contrariando a Constituição Federal, que assegura a igualdade de
todos perante a lei. Os eleitores cujas urnas já haviam sido fechadas não
puderam votar até as 19 horas, ao passo que aqueles cujas urnas permaneciam
abertas puderam exercer o voto até esse horário. Esse tratamento desigual
comprometeu a segurança jurídica do pleito. Trata-se de uma alteração de regras
no curso da eleição que sequer emanou do Tribunal Superior Eleitoral.
Concretizou-se, assim, a violação de dois preceitos fundamentais que a Carta
Magna visa preservar: a segurança jurídica e a isonomia.
A
terceira observação é a de que se criou a impressão de que a ilegalidade
compensa. Por quê? Porque, segundo jornais e emissoras de televisão, ônibus que
transportariam eleitores na Bahia ostentavam adesivos do Partido dos
Trabalhadores, e o material precisou ser removido por se tratar de propaganda
ilegal. Em razão disso, os veículos atrasaram a saída das garagens para levar
os eleitores aos locais de votação. Com o intuito de beneficiar esses
eleitores, num estado onde o PT é bastante forte, o ministro Zanin — antigo
advogado do candidato à reeleição — estendeu o horário de encerramento da votação,
e a medida acabou sendo aplicada a todo o País, certamente impa ctando o
resultado.
Consagrou-se,
assim, a ideia de que a ilegalidade compensa: o partido praticou um ato ilícito
e acabou beneficiado por ele. Vimos um ministro do STF alterar as regras do
Tribunal Superior Eleitoral — reduzido a uma mera casa de tertúlias acadêmicas
— para impor novas diretrizes no curso do pleito. São essas as três observações
que gostaria de fazer. Passo, agora, à sugestão.
Estou
convencido de que devemos adotar imediatamente o modelo britânico do Gabinete
Sombra (Shadow Cabinet),
formalizado em 1937: um grupo de políticos seniores do partido de oposição é
encarregado de “espelhar” o gabinete dos ministros do governo em exercício.
Considero fundamental que o senador Flávio Bolsonaro e os conservadores adotem
esse modelo para fiscalizar o futuro governo.
No
Reino Unido, quando o primeiro-ministro assume o cargo, a oposição forma o seu
Gabinete Sombra. Para cada ministro do governo, designa-se um “ministro
sombra”, encarregado de acompanhar e questionar a atuação do titular da pasta,
fiscalizando a administração e apontando e denunciando as falhas de sua gestão.
A
ideia não é nova entre nós. O próprio Lula, após a derrota na eleição de 1989,
organizou com o PT o chamado Governo Paralelo durante o governo Fernando
Collor, com a participação de Márcio Thomaz Bastos, que viria a ser ministro da
Justiça em seu governo. Márcio Thomaz Bastos foi meu colega de turma na
Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e advogamos juntos em alguns
casos. Ele integrou aquele gabinete paralelo e foi o responsável por acompanhar
e fiscalizar a área da Justiça no governo Collor.
Por
que formar esse gabinete? Porque o Congresso Nacional é conservador. Diante das
inúmeras concessões feitas pelo presidente Lula e do severo comprometimento das
contas públicas, o presidente enfrentará profundas dificuldades, e há enorme
incerteza sobre como será sua administração. Por tudo isso, precisamos
constituir imediatamente um Gabinete Sombra.
Uma
semana antes da posse de Lula para o terceiro mandato, o então presidente Jair
Bolsonaro telefonou-me, e eu lhe fiz a seguinte observação: “Presidente, o
senhor deveria ter criado, no dia 1º de novembro, um Gabinete Sombra, para
formar desde logo uma oposição forte, disposta a controlar, fiscalizar e
denunciar tudo aquilo que estivesse errado no governo”.
É
o que sugiro agora: que o senador Flávio Bolsonaro faça aquilo que seu pai, o
ex-presidente Jair Bolsonaro, não fez nos dois meses que antecederam a posse do
presidente Lula. Que crie o Gabinete Sombra para auxiliar o Congresso Nacional
na fiscalização do governo, uma vez que o Supremo Tribunal Federal, como se
depreende de diversas decisões recentes, encontra-se nitidamente alinhado ao
Poder Executivo e ao presidente da República.
Enfim,
precisamos encontrar caminhos democráticos — e esses caminhos devem começar
pela instituição do Gabinete Sombra, que auxiliará o Congresso Nacional na
fiscalização da administração. Essa atuação será fundamental diante da forma
como o presidente Lula conduziu o País até aqui e do absoluto descontrole das
contas públicas, a fim de evitar que novos e graves erros se somem aos muitos
já cometidos.
Só
assim atuaremos plenamente dentro da democracia. Não creio, afinal, na efetividade
de eventuais pedidos de impugnação: ainda que sejam apresentados, a decisão
caberá exatamente àqueles que alteraram as regras do Tribunal Superior
Eleitoral.
Considerando
que as sucessivas decisões da Suprema Corte têm sido favoráveis ao presidente
Lula, fica claro que a controvérsia não deve ser travada na arena jurídica, mas
no campo político. Como contamos com um Congresso conservador, cabe a ele
fiscalizar — concordando com o que for benéfico para o País, mas denunciando e
combatendo o que for incorreto. Tenho a convicção de que esses são os caminhos
a serem seguidos neste momento.
Ives Gandra da
Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie,
Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de S. Paulo, das Escolas de Comando e
Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do
Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), professor honorário das
Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis
(Romênia), doutor honoris causa
das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da
Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da
Fecomercio-SP, ex-presidente da Acade mia Paulista de Letras (APL) e do
Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

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