O ABATE VOLUNTÁRIO: QUANDO O ELEITOR CANCELA O PRÓPRIO CPF SOCIAL
Imagem produzida com uso de IA
Urtiga do Juruá
Gontran Neto 05, outubro de 2026
MILAGRE NA ZONA ELEITORAL: QUANDO O
VOTO VIRA
MITO, A URNA VIRA SANTA
Com o avanço da bancada disposta a emparedar ministros do Supremo Tribunal Federal, que já soma dezenas de parlamentares de braços cruzados esperando a posse, uma mágica institucional aconteceu: as urnas eletrônicas subitamente deixaram de ser fraudadas? Pelo visto, o sistema eleitoral brasileiro só sofre de "vulnerabilidade técnica" quando os resultados não cobrem o clã Bolsonaro de glórias. O choro de fraude tem endereço fixo, mas a hipocrisia é de livre acesso.
PROJEÇÃO DE UM DESASTRE ANUNCIADO
Não se trata de adivinhação, mas de ler os sinais abertos na mesa: as reflexões a seguir desenham o retrato fiel do que espera o Brasil caso a vitória de Flávio Bolsonaro se consolide no segundo turno. É o inventário do país entregue à sanha de um projeto que não esconde suas intenções.
MAIOR BANCADA DO SENADO
O resultado do primeiro turno impulsionou Flávio Bolsonaro e transformou o PL na maior bancada do Senado desde a redemocratização. O dedinho de arminha e a dancinha de rede social, contudo, não pagam o botijão de gás nem enchem o carrinho de supermercado.
BACIA DAS ALMAS
O eleitor menos favorecido que cai no conto da guerra cultural e se
imagina "subgerente do capitalismo" é o primeiro a sentir o tranco da
realidade quando o salário-mínimo murcha e os serviços essenciais vão para a
bacia das almas.
DESMONTE DOS PRÓPRIOS DIREITOS
Enquanto gasta dados do celular defendendo fortuna de bilionário, ele assistirá ao desmonte dos próprios direitos com um sorriso alienado no rosto. No fim das contas, a mitologia do "empreendedor de si mesmo" entrega apenas o direito de ralar doze horas por dia sem descanso remunerado, trocando seguridade social por um punhado de slogans vazios e boletos impagáveis.
A ENTREGA DO TABULEIRO
Na hora de decidir entre proteger o trabalhador ou deixá-lo provar o
gosto amargo da própria escolha, que prove: se votou contra si mesmo, que
abrace a escala 7x0 para consolidar a cartilha da servidão e a ilusão de
"negociar de igual para igual" com o patrão. Opera aí uma inversão
perversa: a remuneração deixa de ser direito para virar esmola, como se o
assalariado devesse agradecer por receber pelo que produz. As urnas mostraram
que há quem prefira legitimar o próprio garrote a conquistar dois dias de folga
na semana.
O PACOTE FARIA LIMA E O FESTIM DAS
PRIVATIZAÇÕES
Em nome da cartilha da Faria Lima e sob os aplausos da imprensa hegemônica, as medidas drásticas de austeridade já estão contratadas. O preço do ajuste recairá, como de costume, sobre as políticas públicas: o desmonte dos programas sociais e o fim dos subsídios à energia e ao transporte farão o combustível disparar. Consolida-se a retórica elitista: a de que mobilidade é privilégio e que "só tem carro quem pode". E o mais tragicômico: há quem dependa de três conduções lotadas e aplauda esse discurso.
LEILÃO DE LIQUIDAÇÃO
O leilão de liquidação do patrimônio público já tem data para começar. Petrobras, Caixa, Banco do Brasil e Correios serão servidos de bandeja à sanha do mercado, enquanto o Farmácia Popular voltará à asfixia orçamentária até secar o remédio de uso contínuo de quem mal tem o que comer.
POUPEMOS SALIVA
Sobre o SAMU, as Universidades e os Institutos Federais, poupemos a saliva. O novo pelotão de "pensadores" que bate à porta de Brasília já desenhou seu plano clássico de "eficiência": estrangular o serviço público até o osso para vender a salvação privada a peso de ouro. Para o eleitor que bateu palma no abate, a carcaça privatizada certamente virá escoltada por um belo discurso sobre liberdade financeira.
A PORTEIRA DO LATIFÚNDIO
Para o meio ambiente, a porteira não será apenas aberta: será arrancada das dobradiças. A motosserra e o correntão voltam a operar com salvo-conduto institucional, transformando biomas inteiros em pasto ralo e monocultura de soja sob a bênção do "livre mercado".
O COLAPSO CLIMÁTICO É FRESCURA
Na cabeça carcomida do latifúndio predador, o colapso climático, que já torra a própria safra e seca as represas, não passa de "conversa de comunista desocupado". Ironia sublime: devastam o solo com a fé cega de quem acredita que boi bebe diesel e soja brota de cinza pura.
A COMIDA NA MESA
A agricultura familiar, responsável pelo prato de comida na mesa do brasileiro, será jogada para escanteio. Os bilhões do crédito rural marcharão direto para os barões do agronegócio de exportação. O recurso que deveria baratear a comida do vulnerável vai irrigar os cofres de quem coleciona jatinhos e iates em paraísos fiscais.
A CHANCELA DO CINISMO
Pelo voto, parte expressiva da classe média, aquela que parcela um SUV em 60 vezes e jura que tem assento no andar de cima, decretou que a desfaçatez compensa. Validou sem pudor as festas de bacana com dinheiro público, o lobby descarado nos corredores de Brasília e o deboche daqueles que zombam do rigor da lei.
A FARSA GROTESCA
O eleitor comprou a farsa grotesca de que os atos golpistas de 8 de
janeiro não passaram de um piquenique dominical de "velhinhos com a Bíblia
na mão", orando pacificamente na Praça dos Três Poderes. O salvo-conduto
foi emitido nas cabines de votação: reescreve-se o atentado à democracia,
limpa-se a ficha de quem conspirou contra as instituições e prepara-se o tapete
vermelho para anistiar o clã Bolsonaro e devolvê-lo, com pompa e circunstância,
ao centro do poder.

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