A cadeira de plástico no corredor - Chico Araújo deixa os palácios e encontra o país real em ‘Drogas que Destroem Vidas’
Por PITTER LUCENA (*)
A cena que abre a sinopse oficial de Drogas que Destroem Vidas — Do Vício à Redenção não está no palácio do governo. Está num corredor de hospital público de Rio Branco. Chico Araújo tinha vinte e poucos anos, era repórter. Um homem de quarenta e cinco anos, sentado numa cadeira de plástico, esperava alta. Tinha entrado três dias antes por convulsões de abstinência alcoólica. Não pediu nada. Só olhou, como quem quer ser visto. Araújo ficou. O homem não falou do sofrimento, que era o esperado. Falou do começo. De como tudo parecera pequeno demais para ser levado a sério. Uma cerveja depois do expediente que virou hábito. O hábito que virou necessidade.
Quatro décadas depois, essa imagem volta como estrutura narrativa do quarto livro solo de Araújo — prefaciado pelo professor Francisco Dandão, jornalista e membro da Academia Acreana de Letras —, lançado pela Editora Social, de Brasília / Uiclap, em 2026, com 214 páginas e ISBN 978-65-84220-03-4. A obra é comercializada nas categorias Abuso de Substâncias & Vícios, sob as tags DROGAS, DEPENDÊNCIA, VÍCIO. Link: https://loja.uiclap.com/titulo/ua204602.
Para quem acompanhou a trajetória do autor, o deslocamento é radical e, por isso mesmo, coerente. Como descreve a própria página Sobre o Autor da obra, Chico Araújo é advogado, jornalista e escritor acreano. Nascido em um seringal na região de Jordão, encontrou nos livros os primeiros caminhos para além da floresta. Ainda estudante, em Tarauacá, criou um jornal escolar mimeografado — experiência que anunciava uma trajetória de mais de três décadas dedicadas ao jornalismo
Atuou na imprensa acreana, com passagem pelos jornais Folha do Acre, Diário do Acre, O Branco, A Gazeta e TV Acre, além de correspondente de O Estado de S. Paulo. Se estabeleceu em Brasília, onde trabalha como advogado, comunicação e assessoria política. Graduado em Direito pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), possui também formação em Teologia pela Arquidiocese de Brasília. Sua escrita, como ele mesmo define, aproxima a memória pessoal da experiência jornalística, levando às páginas vivências que atravessam a Amazônia e os bastidores da vida pública brasileira.
É autor de Quando Convivi com os Ratos, Sombras do Poder e Memórias de um Repórter, além de, em parceria com este resenhista, coautor de Os Milhões do Governador. Entre a lembrança do menino do seringal e o olhar do repórter, constrói uma literatura alimentada pela vida que testemunhou. Tem pouco mais de 60 anos e publicou o primeiro livro apenas aos 59.
Agora, troca o gabinete pelo CAPS-AD. O que move Drogas que Destroem Vidas não é a pauta, é o que ele chama, na Nota do Autor, de dívida. “Ao longo dos anos, a dependência química não me afetou apenas como profissional que cobria o tema. Afetou-me como ser humano que tem família, que tem amigos”. E o ajuste de contas com a própria imprensa: “Tratar dependência como sensacionalismo ou como estatística é uma forma de silêncio disfarçado de cobertura”.
O livro se organiza em 13 capítulos divididos em quatro movimentos. Dois dados dão a medida desse silêncio. O primeiro, da Fiocruz 2025 com base na OMS, citado à página 19: são 3,5 milhões de brasileiros com dependência química; só de álcool, 11,7 milhões — o equivalente a uma cidade de São Paulo. O consumo de álcool causa 12 mortes por hora no país, 104,8 mil por ano. O segundo, da OMS e da Fiocruz, sobre o efeito cascata: cada pessoa com transtorno por uso de substâncias impacta de três a cinco pessoas próximas. No caso do álcool, 35 a 58 milhões de brasileiros vivendo sob impacto cotidiano. “Um país dentro do país”, sintetiza.
O terceiro dado vem da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, à página 27: 63,2% dos adolescentes entre 13 e 17 anos já experimentaram álcool; 34,6% antes dos 14 anos. É a epidemia sendo construída agora, nas festas de fim de semana, enquanto o noticiário procura a cracolândia.
Araújo desmonta justamente essa imagem. No capítulo sobre território, mostra que o rio Solimões, ausente dos mapas da DEA, tornou-se artéria do tráfico, e que o crack, que devastou periferias nos anos 1990 e 2000, hoje “não mora em concentrações visíveis. Mora em periferias, em favelas, em casas de família, em alojamentos”, páginas 39-40. E o dado que fecha o cerco: apenas 11,7% dos usuários de cocaína e crack recebem atendimento especializado. O resto se dissolve nos leitos do SUS, nas perícias do INSS, nos laudos do IML.
No núcleo do livro, O Impacto Invisível — O Cérebro e o Corpo em Colapso Silencioso, o jornalista recorre à neurociência sem jargão. “Estudos indicam que, na presença de substâncias como a cocaína, a atividade dopaminérgica pode ser até mil vezes mais intensa do que a produzida por estímulos naturais”. Depois, a curva: os estímulos que antes davam prazer perdem a capacidade de gerar satisfação. “A dependência, nesse estágio, já não é sobre buscar prazer. É sobre evitar sofrimento”.
É desse lugar que emerge o capítulo mais forte, Famílias em Ruínas—O Vício que Despedaça Lares, Sonhos e Heranças. Araújo relata a mulher de 40 anos, bem-vestida, com uma pasta de documentos no CAPS-AD, que fora pedir orientação para o filho de 22, usuário de crack há três. Quando a assistente social pergunta como ela, não o filho, está, vem o silêncio e a frase sem drama, com cansaço sereno: “Eu não lembro mais como era antes”.
Dandão, no prefácio, chama a obra de “um canto surgido da escuridão de um flagelo planetário”. É preciso entender o elogio. Dandão não está falando de um livro sobre drogas. Está falando de um livro sobre o Brasil que não aparece na primeira página, mas que decide eleições, lota hospitais e esvazia casas.
Dedicado “para todos que desceram os degraus sem perceber. E para os que encontraram o caminho de volta”, Drogas que Destroem Vidas se encerra com glossário, recursos para profissionais, epílogo e referências bibliográficas. Não promete redenção fácil. Como lembra o psiquiatra ouvido por Chico Araújo em Brasília, “o tratamento não falhou porque tentamos e não funcionou. Falhou porque a maioria nunca chegou a tentar de verdade”.
Fica, ao fim, a cadeira de plástico do começo. A mesma da sinopse. O homem que só queria ser visto.
SERVIÇO
DROGAS QUE
DESTROEM VIDAS — Do Vício à Redenção
De Chico Araújo.
Prefaciado pelo professor Francisco Dandão. Editora Social, de Brasília /
Uiclap, 1ª ed., 2026, 214 págs.
À venda em: https://loja.uiclap.com/titulo/ua204602
(*) PITTER
LUCENA é jornalista, escritor e coautor com Chico Araújo de Os Milhões do
Governador. É editor e fundador da Editora Social, de Brasília.
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