Vencer a crise institucional é o objetivo do eleitor brasileiro
Foto: Andreia Tarelow
O grande problema que o brasileiro está sentindo
nessas eleições é a insatisfação com o momento institucional do Brasil. Todos
percebem que nós não temos aquilo que o constituinte desejou: dois Poderes
políticos e um Poder técnico-jurídico.
Desde
que o Poder Executivo intensificou a indicação de figuras com acentuado
histórico político para o Supremo Tribunal Federal, a Excelsa Corte deixou de
exercer exclusivamente a função inata à qual fora destinada pela Constituição
Federal, a qual fora, a de um poder técnico-jurídico, passando a atuar, em não
raras situações, com viés político.
De
fato, atualmente, na Suprema Corte apenas 1 dos 10 ministros foi magistrado de
carreira.
Os
demais exerceram cargos políticos antes de assumirem suas cadeiras na Excelsa
Corte, a ela conferindo – contrariamente à mens legis
constitucional – uma conotação política.
No
auge do governo militar, mais precisamente no ano de 1969 – ano em que Carlos
Marighella foi morto – tive um pedido de confisco de bens e abertura de
inquérito policial militar contra mim.
Em
1971, por cinco votos a três, foi julgada improcedente, pelo Supremo Tribunal
Federal, a ação proposta contra meus clientes, a qual originara o pedido feito
contra mim pelo então ministro Delfim Netto, por ter recebido deles os
honorários para pleitear em juízo, o que demonstra que eles tinham
direito.
Menciono
esse episódio para lembrar que até o governo militar sempre indicou para compor
o STF cidadãos vinculados ao Direito.
Podem
alguns objetar que o ministro Bilac Pinto foi udenista, olvidando-se de que ele
era proprietário da Editora Forense, a mais antiga editora jurídica do Brasil,
tendo vivido intensamente o Direito.
Outros,
podem alegar que Oscar Correia fora deputado federal, sem levar em consideração
o fato de que foi professor titular de Direito Econômico, vencendo o concurso
para a cátedra de Economia Política na Faculdade de Direito da Universidade
Federal de Minas Gerais, tendo como principal concorrente na disputa o jurista
Washington Peluso Albino de Souza.
Destarte,
tenho a impressão de que, hoje, há um sentimento generalizado de esgotamento na
população quanto à aceitação da coexistência de três poderes políticos,
acarretando, consequentemente, uma desconfiança do povo nas instituições.
Vivemos uma crise institucional.
Pari
passu,
desde o instante em que há um desequilíbrio na harmonia e independência entre
os três Poderes desfigura-se a democracia plena, máxime tendo em conta que o
poder técnico nela estabelecido não deve se imiscuir em questões políticas,
atendo-se, exclusivamente, às questões técnicas envolvendo a observância e o
fiel cumprimento das normas postas nas situações concretas, sob pena de quebra
da ordem constitucional e institucional.
Não
discuto o mérito dos juristas que estão no Supremo Tribunal Federal, nem estou
discutindo os candidatos que aí estão — apesar de já ter dito que vou votar em
Flávio Bolsonaro, pois acredito que ele é a nossa esperança para mudar essa
crise institucional que se instalou nos últimos quatro anos dentro da República
brasileira.
Contudo,
o nosso grande desafio, hoje, mais do que discutir a administração do atual
governo — que, para mim, foi desastrosa em inúmeros aspectos, principalmente do
ponto de vista econômico e financeiro —, é que temos de mudar os rumos do nosso
país, até para que o Brasil possa voltar a crescer.
Afinal,
a atual gestão federal falhou em entregar estabilidade e previsibilidade à
sociedade. Em vez de liderar as reformas estruturais indispensáveis, o
Executivo optou por alimentar o conflito permanente com as demais instâncias da
República, aprofundando o esgotamento do ambiente de negócios e a insegurança
jurídica.
E
os eleitores já demonstraram que estão de pleno acordo com essa necessidade
quando os resultados do primeiro turno geraram, nos dias subsequentes, a alta
da bolsa e a queda do dólar — tudo isso demonstrando a esperança de que o
Brasil volte a crescer.
A
meu ver, o eleitor, ao ir votar, mais do que a preferência por A ou B, espera a
superação da crise institucional que fez com que deixássemos de acreditar nos
Três Poderes, corroborando, assim, para o realinhamento do curso da história de
nosso país.
Se
essa mudança não se perpetrar, continuaremos mergulhados nessa crise
institucional em que a Suprema Corte perdeu muito da credibilidade perante o
povo, o Executivo a ela está vinculado, e o Legislativo depende do Supremo e do
Executivo para garantir a manutenção do poder.
Minha
percepção, analisando a atual realidade brasileira, é a de que, mais do que
simplesmente escolher um ou outro candidato, o Brasil, ao votar em Flávio
Bolsonaro, está buscando a restauração daquilo que os constituintes desejaram e
sedimentaram na Carta Magna como um dos vetores de nosso Estado Democrático de
Direito: três poderes harmônicos e independentes — dois apenas representando o
povo (Executivo e Legislativo) e um exclusivamente técnico-jurídico
(Judiciário), cada qual respeitando as competências e atribuições uns dos
outros.
Ives Gandra da Silva
Martins é professor emérito das universidades
Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de S. Paulo, das Escolas de
Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da
Magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), professor
honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e
Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa
das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da
Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da
Fecomercio-SP, ex-presidente da Acade mia Paulista de Letras (APL) e do
Instituto dos Advogados de
São Paulo (Iasp).

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