A banalidade do mal e as eleições no Brasil
“O problema não é acreditar em uma mentira, é quando a verdade já
não importa, escreveu Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, que se
tornou uma das mais influentes pensadoras políticas do século 20. As reflexões
de Arendt sobre o totalitarismo e o que caracterizou com clareza a banalidade
do mal, trazem algo até hoje revelador.
Quando
as mentiras de alguns líderes são desmascaradas, poucas pessoas se colocam
indignadas, ou entendem que foram enganadas. Ao contrário, ironicamente passam
a admirar a inteligência, a esperteza estratégica do mentiroso. Ou seja,
naturalizam que não era um golpe, mas uma astúcia para que o suposto “salvador
da pátria” conduzisse a todos para um estado de coisas imaginariamente melhor.
Acreditar
em tudo ou em nada, parte do princípio de induzir a todos a que tudo é
possível, porque nada é verdadeiro. Diante de um fantasioso caos, só atitudes
radicais podem ser soluções seguras para o que ameaça o conjunto da sociedade.
Pablo Marçal, Mamãe Falei, Renan Santos, Flavio Bolsonaro e outros políticos
oportunistas surgem desse princípio.
Você
deve estar se perguntando: “Como alguém pode acreditar nisso?”. Pois é...
Arendt dá a resposta em uma só palavra, que tem até um viés bonito: ideologia.
É pegar a lógica de um determinado tema e ultrapassar todos os limites, a tal
ponto que ela resolva tudo.
Algo
que acontece assim. Quando confirma, torna-se testemunho válido. Quando
contraria, é porque foi manipulado. Então, fica implicitamente “provado” que há
uma conspiração. E tudo se inverte, a realidade não mais confronta a crença. É
o que você acredita, independentemente de ser verdade, que decide o caminho a
ser obedecido.
Tudo
isso atrai os menos informados, como também até os mais informados. Porque não
se fundamenta na lógica, e sim no efeito de tornar a realidade algo fluido,
complexo, intangível. A ideologia pretendida como única saída, mesmo que
baseada em mentiras, é tão bem planejada, proposta, que traz uma solução mágica
para o ideal, o perfeito e de interesse geral.
Hannah
Arendt, em suas reflexões sobre o totalitarismo e a banalidade do mal, mostra
uma inquietude ainda mais preocupante. O fanatismo radical é menos perigoso do
que a desesperança. Quando fato e versão dele já não importam, é porque a
mentira foi naturalizada e perdoada. Nesse contexto, é prática inverter a
responsabilidade atribuindo a culpa do ato violento a quem o sofreu, como
ocorre em casos de feminicídio e homofobia. O medo, a vergonha e a pressão
social ainda fazem com que abusos sejam escondidos, minimizados ou confundidos
com cuidado ou “equivocada brincadeira". Pior, “legítima defesa”.
A
história nos mostra que muitos criminosos de guerra, autores de atentados
contra a humanidade, acreditavam piamente que estavam fazendo o certo, o
melhor, o necessário. E os seus seguidores também. Há quem não admita o erro,
mesmo diante da constatação da verdade. Nem sempre é o típico teimoso, mas
muitas vezes alguém dominado pela crença inquestionável no que lhe parece
melhor para si e para todos os demais.
Estamos
observando na campanha política destas eleições, que um candidato, Flavio
Bolsonaro, ataca o seu adversário usando os erros que ele, Flavio, e sua
família cometeram. E, cinicamente, como se não fossem culpados do que é público
e notório. Para alimentar sua estratégia, ao criar factoides contra Lula, faz
com que os menos atentos entendam que o adversário é que se tornou o criminoso.
Hannah
Arendt escreveu e publicou seus livros entre os anos 1950 e 1970. Observem que
suas reflexões seguem atuais, merecendo nossa atenção no que ela pensou sobre o
jogo político. Arendt morreu em Nova York (EUA) em 4 de dezembro de 1975.
Enfrentou o nazismo, foi presa e escapou da morte. Lutou pela liberdade por
toda a vida. Sua mensagem permanece eterna: “Todos são chamados a examinar as
leis e a defender a dignidade humana e a democracia”.
*Ricardo
Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em
Educação, Arte e História da Cultura (UPM), membro da Comissão de Defesa da
Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de
Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que
descobriu o Brasil, Memórias de um
tempo obscuro e Um inferno em
Mianmar – Os perigos da escravidão moderna.

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