12 DE OUTUBRO: A PADROEIRA DOS HUMILDES E A FÉ QUE RESISTE AO DOGMA CEGO

 

Imagem produzida com uso de IA

Urtiga do Juruá

Gontran Neto 12, outubro 2026

ENTRE A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA E A SOMBRA DA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Hoje, 12 de outubro, o Brasil volta a celebrar a sua padroeira. A data solene dedicada à Nossa Senhora Aparecida constitui patrimônio cultural e religioso do país, reunindo milhões de fiéis em oração e esperança. No entanto, diante da escalada de um fundamentalismo que tenta apagar tradições históricas, subjugar a fé alheia e impor a ferro e fogo o seu próprio dogma, paira o alerta inquietante de que este pode ser um dos últimos dias santos que os católicos conseguem comemorar em plena paz, respeito e liberdade.

O MANDAMENTO DO RESPEITO SOB AMEAÇA

Vale recordar que a Constituição brasileira consagra a laicidade do Estado justamente para assegurar a livre manifestação de culto e tipifica a intolerância religiosa como crime. Ainda assim, o mandamento do amor ao próximo tem sido suplantado pelo imperativo da destruição do outro: circulam recorrentes investidas e discursos contrários à memória e à devoção católica, culminando em atos de extremismo que insistem em incendiar igrejas, quebrar e vilipendiar imagens sagradas respeitadas por todo o país.

A NOVA INQUISIÇÃO E O EXPURGO DAS DIFERENÇAS

O ápice dessa liturgia nefasta manifesta-se na intolerância radical contra quem não se curva à mesma cartilha. Aos discordantes, não se reserva o debate, mas o aniquilamento: ameaças explícitas de morte, discursos misóginos que rebaixam mulheres, agressões racistas contra a população negra e o expurgo contínuo de minorias vulneráveis. Como advertem as Escrituras, trata-se de sepulcros caiados e lobos em pele de cordeiro,  homens e projetos que a história há de julgar, inevitavelmente, pela amargura de seus frutos.

A CEGUEIRA CONVENIENTE DOS INTOLERANTES

Entre a rigidez da Antiga Lei e o sopro libertador do Evangelho, ergue-se um abismo que os profetas da intolerância fingem não enxergar. Se o Antigo Testamento registrou períodos marcados pela força da espada e pela dureza da retaliação, o Novo Testamento irrompeu na história para quebrar esse ciclo por meio da misericórdia e do acolhimento. Contudo, há setores que insistem em retroceder à brutalidade.

A ESPADA EMBAINHADA E O CRISTO DESARMADO

A contradição começa no abandono da passagem mais luminosa da tradição cristã: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus" (Mateus 5:9). Ignora-se também o episódio emblemático do Getsêmani, quando Pedro, dominado pela fúria, feriu com a lâmina a orelha do servo do sumo sacerdote.

JESUS DESARMOU SEU DISCÍPULO

A resposta de Jesus foi categórica: mandou guardar a arma, curou o adversário ferido e sentenciou que quem vive pela espada, pela espada perecerá. Jesus desarmou seu próprio discípulo. Enquanto líderes atuais defendem armar a sociedade como prioridade de segurança, o exemplo de Cristo aponta para o caminho oposto.

JESUS À IMAGEM DE NOSSOS RANCORES

Hoje, os adeptos de um dogmatismo cego preferem moldar um Cristo à imagem de seus arsenais e rancores. Se o Nazareno regressasse descalço, acolhendo marginalizados e pregando o amor irrestrito, seria tratado como uma ameaça à ordem pública pelos mesmos que bradam o nome de Jesus Cristo.

O CALVÁRIO NA ERA DO ALGORITMO

Em vez do madeiro romano, seria linchado nas arenas digitais e metralhado em nome de uma pureza forjada. Há uma continuidade sombria nessa história, a truculência dos soldados romanos que torturaram e escarneceram de Jesus guarda a exata essência dos algozes modernos que, em períodos sombrios da nossa história, celebravam a dor do corpo indefeso e amarrado em porões de tortura.

MÃOS ARMADAS, TEMPLOS CHEIOS

O retrato mais desolador desse fenômeno atinge as gerações mais jovens. Crianças são instruídas e estimuladas a simular gatilhos com as mãos pela manhã, familiarizando-se precocemente com a estética da violência, para que, à noite, adentrem os templos e levantem essas mesmas mãos em prece. Mas não há Deus na boca do cano, nem pátria na miséria alheia, nem família edificada sobre o ódio

A VIRTUDE ENCENADA

O patriotismo de fachada e a fé cenográfica são ostentados como salvo-conduto. Trata-se, no entanto, da mesma impostura denunciada no Sermão do Monte, que alertava contra aqueles que rezam alto nas praças para receber aplausos e fingem santidade.

JESUS FOI INCISIVO:

"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai". Por trás da retórica dos valores tradicionais, o que sempre vicejou nos bastidores foi o cinismo, a corrupção velada, o privilégio desmedido e os desregramentos morais que publicamente condenam.

CONSPIRAÇÃO NOS GABINETES, MISÉRIA NAS RUAS

A farsa torna-se ainda mais nítida quando confrontada com a realidade de um governo de quatro anos atrás. Enquanto minutas de golpe eram redigidas na calada da noite e planos funestos eram arquitetados para eliminar magistrados e lideranças eleitas, mais de trinta milhões de brasileiros enfrentavam a fome, com famílias submetidas à humilhação das filas por ossos e do prato vazio.

UM CASTELO DE AREIA

Zombar da ciência e da asfixia de um povo em meio a uma calamidade sanitária nunca foi defesa da pátria; foi conivência com a morte. Que o manto da Padroeira proteja o país da cegueira deliberada, pois, contra a força de uma fé que acolhe os marginalizados, o negacionismo sempre será um castelo de areia.

 

 


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