CRÔNICA: O INVENTÁRIO DOS DIAS E O SOPRO DA PARTIDA
Urtiga
do Juruá
Por
Gontran Neto
Chega-se
aos sessenta anos sem pedir licença ao relógio. No primeiro dia de setembro de
2026, a folha do calendário virou com um peso diferente, não pelo rótulo solene
de sexagenário, que soa quase formal demais para quem ainda guarda a poeira das
estradas na sola dos sapatos, mas pela certeza de que a conta fechou. Paguei o
tal pedágio da previdência, encerrei quarenta e dois anos de labuta e, pela
primeira vez em muito tempo, o amanhã me devolveu o comando do tempo.
A
vida, afinal, tem suas estações bem demarcadas. Olho para trás e vejo os
primeiros vinte anos banhados pela luz dourada e inquieta dos anos oitenta.
Havia uma urgência leve no ar: as festinhas de garagem, o cheiro de cigarro
dividindo espaço com as tardes de esporte, os bailes de salão, os festivais de
praia, o Samambaia, o Clube do Magid, e a rotina austera do Colégio Agrícola.
Éramos filhos de um Brasil que redescobria a democracia em meio a crises
econômicas, mas tínhamos a blindagem das amizades inquebrantáveis e a doce
irresponsabilidade de quem gastava o primeiro contracheque sem saber o que era
insônia.
Depois,
veio o prumo. Aos vinte e um, a vida me apresentou o esteio que me sustentaria
por quase quatro décadas. Casei-me com uma fortaleza em forma de mulher, segura
de si, altiva, a bússola que manteve o barco na linha reta mesmo quando minhas
próprias fraquezas e tropeços ameaçavam trazer tempestade para dentro de casa.
Desta cumplicidade vieram três filhos, verdadeiras obras esculpidas com a fibra
da mãe e a presença do pai: honrados, leais, educados no melhor sentido que a
palavra carrega. E quando eu julgava que o coração já conhecia todos os seus
limites, chegaram dois netos para descompassar o peito, amaciar o chão dos meus
passos e me lembrar de que envelhecer também é aprender a recomeçar com olhos
de criança.
No
meio de tudo isso esteve o dever. Quarenta e dois anos não cabem facilmente num
parágrafo, mas cabem na consciência tranquila de quem entrou e saiu de cada
gabinete com o mesmo propósito: servir sem alarde, desatar nós em vez de
criá-los. Percorri o Acre de ponta a ponta. Fui vereador, passei pelo
"antigo" Senar, dediquei doze anos à lida da Emater no Assentamento
Santa Luzia e assumi a supervisão regional no Vale do Juruá. Vieram os tempos
de Seaprof, a articulação política no governo, a poeira e o asfalto do Ruas do
Povo, a coordenação da antiga Sedens e o desafio humano da Saúde entre o Juruá,
Tarauacá e Feijó. Missão dada, afinal, era missão cumprida; nunca deixei que a
burocracia vencesse a vocação de estender a mão.
Agora,
guardo os diplomas, a Administração com o olhar voltado ao meio ambiente, a
especialização em Políticas Públicas, e resgato com carinho a carteira de
jornalista. É por ela, pelas palavras, que o meu próximo ato vai se desenhar.
Olho
para o retrovisor sem qualquer sombra de arrependimento e para a frente com a
fé inabalável em Jesus Cristo. Fecho esta pasta, desligo o computador da
repartição e caminho até a porta. O que fica para trás é serviço prestado com
honra.

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