BRASÍLIA NÃO FABRICA PICARETA. RECEBE.
Crônicas do Chico *
É
bem interessante porque essa crônica tem origem no seguinte: fiz um post sobre
o fato de eu morar em Brasília há 30 anos. Trinta anos vivendo aqui,
trabalhando aqui, criando raiz aqui. Brasília foi uma cidade que me fez
crescer. Foi aqui que conheci as entranhas do poder, que trabalhei, que
construí minha vida.
Aí
um amigo meu fez um comentário no meu post. Pegou a letra dos Paralamas do
Sucesso, da música "Luís Inácio (300 Picaretas)", que diz que em
Brasília tem 300 picaretas.
E
ficou aquilo na minha cabeça.
300
picaretas em Brasília? Pode até ter. Mas quem são esses 300? De onde vieram?
Foi
aí que o Jurandir me chamou na janela.
"Vem
cá. O Tonhão da Gameleira está dizendo que Brasília é corrupta."
Fui.
Na sombra da parada já estavam os três: Tonhão da Gameleira, Severina
Xique-Xique e Zé Jiu-Jitsu. O conselho da cidade.
Tonhão
repetiu a letra dos Paralamas:
—
São trezentos picaretas com anel de doutor!
Severina
Xique-Xique respondeu na lata:
— Tem, Tonhão. Mas nenhum nasceu aqui. Os picaretas não são originários de Brasília. São eleitos, a maioria pelo voto popular em outros estados, e mandados para cá.
Zé
Jiu-Jitsu, que é o homem dos arquivos, abriu a pasta e o Jurandir gritou:
"Peraí, Zé, você esqueceu os clássicos!"
—
É verdade. Tem mais na prateleira:
—
Os Anões do Orçamento. Em 1993, veio à tona o escândalo que ficou conhecido
como "Anões do Orçamento". Os parlamentares indicavam emendas que
propunham a alocação de recursos que deveriam ser destinados a entidades
filantrópicas ligadas a parentes ou laranjas. Era o baixo clero do Congresso,
de vários estados, desviando o Orçamento da União.
—
A Máfia das Ambulâncias, as Sanguessugas. Esse caso de grande repercussão teve
origem no estado do Mato Grosso e se expandiu por praticamente todo o país. A
Operação Sanguessuga foi deflagrada em maio de 2006. As fraudes atingiram pelo
menos 493 cidades em 22 estados, envolvendo de 60 a 80 parlamentares em 19
estados.
—
O Escândalo do Sivam. Em novembro de 1995, irregularidades nos contratos do
Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam. Tráfico de influência no alto
escalão, contrato de US$ 1,4 bilhão.
—
A Pasta Cor-de-Rosa. Caso noticiado em dezembro de 1995. O então deputado
Antônio Carlos Magalhães, o ACM, da Bahia, apareceu como o maior beneficiário
das verbas eleitorais distribuídas pelo Banco Econômico, em Salvador.
—
O Collor, de Alagoas. Carreira política no estado de Alagoas. Esquema PC
Farias, impeachment em 1992. Veio de Alagoas para cá.
—
O Lula, de Pernambuco. Nasceu em Caetés, interior de Pernambuco. Escândalos do
seu colo: Mensalão de 2005 e Petrolão da Lava Jato.
—
A Dilma, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Nasceu em Belo Horizonte, mas
escolheu o Rio Grande do Sul para fazer carreira. Escândalos: Petrolão e
Pedaladas Fiscais, impeachment de 2016.
—
A Emenda da Reeleição, do Acre. 1997. Deputados acreanos Ronivon Santiago e
João Maia, ambos do Acre, R$ 200 mil cada para votar a reeleição.
—
E os mais recentes: o Roubo dos Aposentados do INSS. A Farra do INSS, Operação
Sem Desconto em 2025. Centro do esquema: Alessandro Stefanutto, nascido em São
Paulo, ex-presidente do INSS, e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o
"Careca do INSS".
—
E o Escândalo do Banco Master. Fraudes financeiras. Controlador Daniel Bueno
Vorcaro, nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, ex-dono do Banco Master,
preso com banco liquidado pelo Banco Central.
Jurandir
lembrou o que os Paralamas e meu amigo esqueceram de cantar:
—
Tonhão, essa música devia dizer que Brasília tem 300 picaretas que o Brasil
inteiro elegeu e mandou para cá. Porque Brasília, por si só, é outra coisa. É
uma senhora de 65 anos, nascida em 21 de abril de 1960. Tem 3 milhões de
habitantes, 2,8 milhões no DF, maior PIB per capita do Brasil, R$ 129 mil, 2,4
vezes a média nacional. Com Rio e São Paulo, 16,8% do PIB. Tem 1,4 milhão de
trabalhadores ocupados, 2 milhões com o Entorno, 42 mil empregos formais novos
em um ano. Uma cidade que, desde 1997, respeita a faixa de pedestre, patrimônio
imaterial, 29 anos parando, 70% menos mortes. Uma cidade que fez este homem
aqui crescer por 30 anos.
Aí
Zé Jiu-Jitsu fechou o principal:
—
E Tonhão, você esquece do principal. É em Brasília que estão concentrados os
órgãos de investigação. É aqui que está o cérebro da República. É aqui que
estão a Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União, o Ministério Público
Federal, o Tribunal de Contas da União. São esses órgãos que investigam os
picaretas que você canta na música. E, quando comprovam as picaretagens, mandam
direto para a cadeia. Brasília não é a fábrica do picareta, Tonhão. É a
delegacia. O picareta vem de fora, mas é aqui que ele é preso. Se Brasília
fosse corrupta como você diz, ela escondia. Ela não esconde. Ela investiga,
prende e expõe.
Tonhão
da Gameleira ficou em silêncio. Olhou para a faixa. Um carro parou.
Severina
Xique-Xique finalizou:
—
Então, da próxima vez que você cantar os Paralamas dos 300 picaretas, Tonhão,
canta direito: em Brasília tem 300 picaretas que o Brasil elegeu e mandou para
cá de presente. A culpa não é da cidade que parou na faixa e que fez este rapaz
conhecer as entranhas do poder aqui há 30 anos. A culpa é da urna que, lá na
tua terra, não parou para pensar.
E
Jurandir, que já ia embora, voltou só para dar o último recado:
—
E olha, Tonhão, nessas eleições que vêm aí, faz um favor para nós que moramos
aqui há 30 anos? Pensa bem antes de escolher. Porque Brasília já está com o
depósito cheio. Se você mandar mais picareta para cá, a gente não vai ter onde
estacionar e a Polícia Federal vai ter que fazer hora extra.
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Chico Araújo é advogado, jornalista e escritor
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