O CAOS DA EDUCAÇÃO NO ACRE: A 80 km do Palácio Rio Branco, crianças bebem água de buraco e comem conserva com sardinha em lata
Fotos exclusivas feitas pelo professor Pedro Peres na Escola Rural Anexo Raimundo Hermínio de Melo, Ramal do Fumaça 2, em Bujari, mostram o lugar de condições precárias onde 36 alunos estudam, em duas salas de tábua comida por cupim, com cisterna aberta no chão e merenda à base de conserva, sardinha, feijão e arroz — a 80 quilômetros da sede do governo que anuncia R$ 1,23 bilhão em educação.
Por Chico Araújo
BUJARI (AC) — As fotos que ilustram esta reportagem não são de arquivo. Foram feitas pelo professor Pedro Peres, P-E-R-E-S, professor de Ciências Humanas, meu amigo de Tarauacá. Ele as fez com seu aparelho Redmi Note 12 entre os dias 24 de junho e 1º de julho de 2026.
Peres foi ser professor na Escola Rural Anexo Raimundo Hermínio de Melo, Ramal do Fumaça 2, em Bujari, e não aguentou ficar três meses. Deixou para trás o lugar de condições precárias onde 36 alunos estudam, em duas salas, e um cenário que resume o caos da educação no Acre rural.
A escola fica a 80 quilômetros do Palácio Rio Branco, sede do governo do Acre. O trajeto: sai do Palácio, pega a BR-364 no sentido de Sena Madureira, roda 72 quilômetros de asfalto até a altura do Igarapé Fumaça, mapeado nas coordenadas 9°34'23"S, 68°16'50"W, e entra mais 8 quilômetros de ramal de chão batido. Total: 80 km do gabinete do governador.
UM ANEXO COM NOME DE ESCOLA DE BAIRRO DE RIO BRANCO
O nome oficial já entrega o improviso: Escola Rural
Anexo Raimundo Hermínio de Melo. Ou seja, a escola do Ramal do Fumaça 2, em
Bujari, não tem sede própria. Ela é um anexo da Escola Raimundo Hermínio de
Melo, que fica em um bairro de Rio Branco.
É um puxadinho oficial a 80 km da escola-mãe.
Nela, segundo o professor Pedro Peres, existem aulas para o ensino fundamental e para o ensino médio. Ou seja, esse arremedo de escola, com duas salas de tábua, atende ao mesmo tempo ao Estado e ao município de Bujari. Nem Estado nem município assumem a estrutura por inteiro.
A CISTERNA
O ponto mais grave está em uma foto de 28/07/2026, às 8h34. Não é cisterna. É um buraco quadrado cavado no barro puro, sem manilha, sem cimento, sem tampa de concreto. A tampa são três tábuas velhas, podres, jogadas por cima.
Dentro, água cinza, barrenta, parada, com folhas podres boiando. Uma mangueira azul grossa está enfiada lá dentro, sugando. Essa mangueira sobe para uma caixa-d'água azul de mil litros equilibrada num jirau torto.
Essa é a água que serve para as crianças. A água da merenda. A água que elas bebem.
O professor Peres explicou que, algumas vezes, chega água mineral na escola. Porém, ela acaba logo. Quando acaba, as crianças são forçadas a tomar água dessa pia, nessas condições. Muitas vezes, a água nem vai para a caixa: ela é tirada direto do buraco, da cisterna, para servir às crianças sem filtrar, porque está mais fria.
"A água que as crianças bebem é a mesma onde o cavalo pisa", diz Pedro Peres.
A ESCOLA DE TÁBUA PODRE
Duas casas de madeira em estacas. Parede de tábua crua, comida por cupim. Em uma foto, a trilha do cupim desenha uma árvore na parede. Janelas sem vidro — um buraco. No pátio, um cavalo amarrado. É o transporte escolar.
A MERENDA — CONSERVA, SARDINHA, FEIJÃO E ARROZ
No armário que serve de despensa, o que há são latas. Latas de carne bovina em conserva, almôndegas ao molho, salsicha, fiambre e sardinha em lata — marcas como Nautique, Gomes da Costa, Anglo, Bordon, Target e Palatare, além de sacos de feijão e arroz.
Segundo o professor Pedro Peres, a merenda é sempre isso: conserva, sardinha, feijão e arroz. São servidas três refeições e só tem isso. Não tem verdura, não tem fruta, não tem carne fresca. É o que as 36 crianças comem todos os dias, no lugar de condições precárias registrado nas fotos.
O PROFESSOR DORMIA NO DEPÓSITO COM GASOLINA, BARATAS E RATOS
O professor contou à reportagem que, no lugar, no
depósito de sardinha, ele dormia lá. Além das latas de conserva e sardinha,
havia galões com gasolina estocados no mesmo ambiente onde ele dormia.
Ele dividia o espaço com baratas e ratos.
Ficou tão revoltado com a situação que fez uma denúncia ao Ministério Público do Trabalho sobre as condições precárias do local, que se assemelham a condição análoga à de escravo.
O CONTRASTE BILIONÁRIO
A 80 quilômetros do Palácio Rio Branco, onde se anunciam
R$ 1,23 bilhão investidos em educação só no primeiro
semestre de 2025, 24% de toda a despesa, o maior proporcional do Brasil segundo
o Tesouro Nacional;
R$ 196 milhões anunciados como investimento
histórico para o ano letivo de 2025;
Cerca de R$ 75 milhões só em merenda em 2025.
O RASTRO — A CORRUPÇÃO COMO PRINCIPAL ALIADA DO DESCASO NA EDUCAÇÃO
O abandono do Ramal do Fumaça 2 não é por falta de dinheiro. É por desvio de dinheiro. A corrupção tem sido a principal aliada do descaso na educação do Acre.
O rastro está nas operações da Polícia Federal que miraram exatamente o cofre da educação.
No dia 16 de julho de 2026, a PF deflagrou a Operação Talha Real. O alvo: a Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Acre. A investigação apura desvio de recursos do Fundeb. Na mira, o ex-secretário Aberson Carvalho. Foram 21 mandados de busca e apreensão, contratos sob suspeita que somam mais de R$ 51 milhões e seis empresas suspensas.
Antes dela, em 26 de agosto de 2025, a Operação Fake Farmers desmontou um esquema de fraudes na merenda escolar no Acre, com desvio estimado em R$ 14 milhões — a mesma merenda que hoje, no Fumaça 2, é só conserva e sardinha em lata. Em 3 de dezembro de 2025, a Operação Dilapsio pegou outro esquema, de R$ 3,38 milhões, em Senador Guiomard, Plácido de Castro e Assis Brasil.
O pano de fundo de tudo isso é a condenação por corrupção do próprio ex-governador do Estado.
No dia 6 de maio de 2026, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou o ex-governador do Acre, Gladson Cameli (PP), na Ação Penal 1.076, a 25 anos e 9 meses de reclusão em regime inicial fechado — a maior pena já aplicada pelo STJ em ação penal originária. Cameli foi condenado por corrupção: organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A relatora foi a ministra Nancy Andrighi. A Corte determinou ainda indenização de R$ 11.785.020,31 e a perda do cargo.
Cameli havia renunciado ao governo em 24 de março de 2026 para concorrer ao Senado em outubro de 2026. Com a condenação colegiada, tornou-se inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Mesmo assim, tenta ser candidato — no dia 13 de agosto de 2026, a Procuradoria Regional Eleitoral ajuizou Ação de Impugnação de Registro de Candidatura contra ele.
Enquanto a Justiça condena por corrupção e a PF
persegue o rastro do dinheiro da educação, a 80 quilômetros do Palácio Rio
Branco, as 36 crianças do Fumaça 2 seguem bebendo água de um buraco no chão.

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