FLAMENGO PRECISA CONTRATAR UM TÉCNICO, AUXILIAR TÉCNICO JÁ TEMOS



Por Edinei Muniz

Não integro o rol dos “entendidos de futebol”. Só gosto um bocado! Mas, como a atual crise do Flamengo - sim, já há uma crise – me parece ser muito mais um desacerto de lógica do que de esquema tático propriamente dito, apelando para ela, a lógica, atrevo-me a alguns comentários, todos, humildemente, e desde já, expostos a eventuais reparações por parte dos tais “entendidos”.

O primeiro divórcio com a lógica: o Flamengo não contratou um “técnico”. O Flamengo contratou um “auxiliar técnico” para exercer a função de técnico. A postura de auxiliar técnico de Domènec Torrent mostrou-se incontestável – e, ao que tudo indica, irrevogável – já nos dois primeiros jogos. Se perder ou empatar diante do Curitiba, a Nação irá jogá-lo no olho da rua. E com toda razão!

Raras presenças incisivas à beira do gramado; caderninho nas mãos e anotações constantes; entrevistas recheadas de evasivas e sem o menor sinal de “justificativas de responsabilidades” quanto à radicalidade das estranhas alterações (humilhantemente fracassadas), revelaram-se como os aspectos escandalosamente mais perceptíveis já nos dois primeiros fiascos da equipe no Brasileirão. Uma VERGONHA! 

Enfim, sinto que falta liderança, capacidade técnica e, desconfio, que falte até mesmo inteligência ao atual comandante tático do Flamengo, ex-auxiliar técnico do Josep Guardiola.

Alguém dirá: é cedo, foram apenas dois jogos! Não, não é cedo!

Nunca é cedo – é de lei - para um técnico de futebol estreante entender como deve receber a matéria-prima que irá manejar em campo.

Dome talvez ainda não tenha entendido, e isso poderá lhe ser fatal, o conteúdo da equipe que recebeu há 20 dias atrás. Tomara que ele entenda mais rápido do que a paciência da Nação Rubro-Negra.

Ora bolas, não se mexe no posicionamento e no esquema tático de um time vencedor, com o peso do atual Flamengo, abruptamente, de supetão e atabalhoadamente como fez Torrent, ainda que, claro, o condicionamento físico, como ele mesmo insinua timidamente, esteja de fato presente, a sugerir o manejo das peças como vem fazendo.
Vale a máxima popular, empírica, mas vale: não se mexe em time que está ganhando! Se mexer, que venham boas justificativas! É o óbvio. Ou não?

Claro que, ao chegar, seria absolutamente natural que o novo técnico trabalhasse para desmontar o esquema histórico de lealdade instituído pelo antecessor para que assim pudesse impor algum nível de autoridade em relação à instalação do próprio ritmo.

Os desmontes dos eventuais arranjos de lealdades fazem parte do processo de conquista da liderança. Normal! Não se pode bem comandar na dependência de algumas lealdades ainda fortemente vinculadas ao antecessor. Isso serve para todo processo que exige liderança. Mais uma vez, normal! Normal, mas não responde pelo cerne do fiasco – ao menos provisório - do espanhol.

Outros dirão: mas o Jorge Jesus também apresentou um sutil retrospecto negativo na estreia em 2019. Sim, é verdade! Mas o contexto de estreia de Jorge Jesus era de “arrumação” e não de “manutenção”, como é o caso do papel a ser exercido por Torrent na atual quadra.

Jorge Jesus era de certo modo um técnico conservador na escalação. Cauteloso, objetivo, com forte liderança e, quando experimentava desenhos novos em campo a execução era quase sempre de grande letalidade para os adversários. Ainda assim, conservador, conseguiu recuperar Gerson e Arão, fez explodir Renier, encaixou 

Vitinho nas horas difíceis e, pq não dizer, transformou Diego em objeto servível à equipe em momentos de decisão. Sempre com grande intensidade. Muita, muita intensidade!

Enfim, a atual equipe do Flamengo construiu um espírito próprio ao longo da última temporada. E, com a maturidade desse mesmo espírito, venceu tudo.

Talvez exista uma sutil diferença separando o perfil de Jorge Jesus do de Torrent. Jorge Jesus chegou no Flamengo como um vencedor calejado, mérito construído por uma escalada construída com os próprios esforços, enfrentando injustiças e amargando derrotas doloridas na Europa em jogos decisivos onde suas equipes eram favoritas. Enfim, Jesus foi forjado na vitória e na derrota.

Já o espanhol, chegou para comandar uma equipe gloriosa, já pronta, apresentando nas primeiras páginas do curto currículo uma “carta de apresentação” do Guardiola. E nada mais. Contratamos o estagiário do Guardiola. Um estagiário, por sinal, diferente, já que é do tipo que não assume a culpa.

Se era para o Flamengo ser comandado por um auxiliar técnico que contratassem o auxiliar técnico do Jorge Jesus. Já era da casa!


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