EX-SENADOR GERALDINHO MESQUITA FOI PERSEGUIDO E CONDENADO PELA DITADURA MILITAR EM PLENO AI-5 - Por Edinei Muniz


Por Edinei Muniz 

Era noite de 12 de outubro de 1968, dois meses depois, em 13 de dezembro do mesmo ano, seria decretado no país o AI-5, ato que inaugurou a fase mais sombria da Ditadura Militar no Brasil. 

Um dia antes, numa fazenda em Ibiúna, interior de São Paulo, onde a União Nacional dos Estudantes (UNE) realizava clandestinamente o seu XXX Congresso, mais de 700 estudantes universitários haviam sido presos pelos militares.  

Inconformados com a gravidade das arbitrariedades ocorridas em São Paulo, estudantes da Universidade de Brasília (UNB) entraram em regime de inquietação total naqueles dias. Iriam reagir! 

Um pouco distante dali, naquela mesma noite, um grupo de esposas de militares realizava uma  quermesse na L-2. 

Enquanto isso, na UNB, Geraldo Gurgel de Mesquita Junior, o Geraldinho, um estudante de Direito de apenas 19 anos, na companhia de outros seis, definem os passos e a função de cada um deles na execução de um plano de protesto extremamente ousado. 

E logo decidem: o alvo seria a quermesse das esposas dos militares na L-2. 

Munidos de panfletos subversivos previamente impressos e alguns tubos de tinta spray, já devidamente providenciados, partiram para a execução daquele mais que ousado plano de contestação política às portas da violência do AI-5. 

Saíram em dois carros. No caminho, entre um comício relâmpago e outro realizaram pichações com os dizeres VIVA UNE em alguns pontos de Brasília 

Chegaram ao local da quermesse por volta das 21:30. Um leilão, desses comuns em eventos dessa natureza, estava sendo realizado.

Ao chegarem, de pronto,  pediram para fazer uso do microfone. O pedido, claro, foi negado. Diante da recusa, os estudantes, enfurecidos, resolvem então  invadir o palanque. 

Enquanto Geraldinho segurava o leiloeiro e outros vigiavam o amplificador para que o mesmo não fosse desligado, um deles, de posse do microfone, diante de dezenas de esposas de militares, e também de muitos deles que se faziam presentes à paisana,  o objetivo do plano foi heroicamente executado. 

E foi assim...

"Nós, os estudantes de Brasília, estamos aqui novamente para combater a ditadura militar que acaba de prender cerca de 700 colegas em São Paulo e morreram outros tantos...Convidamos o povo para sair às ruas e combatermos juntos essa ditadura militar", gritavam os estudantes, enquanto Geraldinho torcia o braço do leiloeiro para que este não viesse a tomar o microfone do companheiro de empreitada subversiva.

Terminado o protesto, os estudantes empreenderam fuga, mas alguns, Geraldinho incluso, foram presos por militares à paisana que acompanhavam as esposas durante a quermesse.

Um mês antes, em 07 de setembro de 1968, durante o desfile militar alusivo às comemorações da Independência do Brasil, o mesmo grupo, segundo afirmaram depois os militares, teria lançado um imenso balão com uma tarja preta, também em protesto contra a Ditadura Militar. 

Geraldinho e os demais companheiros foram processados pela prática de propaganda subversiva perante a Auditoria Militar da  Décima Primeira Região. 

Alguns terminaram absolvidos, mas o ex-senador acreano, denunciado em 01 de setembro de 1969 (auge do AI-5) juntamente com mais dois estudantes, foram condenados, em 05 de abril de 1972, a seis meses de detenção pela prática de propaganda subversiva, crime previsto na Lei de Segurança Nacional em vigor à época.

Veja o processo aqui: 

http://bnmdigital.mpf.mp.br/sumarios/400/354.html
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