Canto Manifesto da Amazônia brilha nas redes sociais

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Por Romerito Aquino (*)

Brasília, 27/05/2020

Os índios, seringueiros, ribeirinhos e outros povos da Amazônia fazem de tudo, há séculos, para defender a maior, mais rica e mais bonita floresta tropical da Terra. De primeiro, se dizia que os índios inventaram o Mapinguari, um bicho feio com um olho na testa, a boca na barriga, a pele de casco de jabuti e uma força descomunal, que comia caçadores ou qualquer um que maltratasse seus rios, seus igarapés, suas árvores, seu céu, seu vento, seus animais, suas aves.
            
Depois, o povo da floresta se armou com fechas, terçados e espingardas para expulsar os invasores. Vieram também os empates, com as mulheres e crianças na frente, para impedir a derrubada da mata para transformá-la em pasto de boi e de soja. Agora, usam a internet para denunciar o avanço devastador das derrubadas e das queimadas. Tudo no vale tudo para evitar que, no chão, sua grande floresta o mate e aumente em dois ou mais graus a temperatura do planeta, trazendo para todos mais falta d’água, calor demais e comida de menos.
            
Antes, os povos da floresta também gritavam, reclamavam, choravam, esperneavam. Mas, de uns tempos para cá, também decidiram cantar. E cantar alto, muito alto, para o mundo ouvir o grave risco da morte da mata que já mata seu povo infeliz. Cantam fortes os índios, os seringueiros, os ribeirinhos. E canta também outro acreano de Xapuri, que também está indo ao mundo, a exemplo do que fez seu conterrâneo Chico Mendes,pregar o seuCanto Manifesto em favor da Amazônia.
            
Seu nome é Edmilson Mapinguari. Isso mesmo, com um sobrenome que ganhou de tanto contar para os outros, desde menino, a história do bicho falado imemorialmente pelos mais antigos guardiões da grande floresta, que ainda detém a maior parte da biodiversidade do planeta, incluindo quase 20% da sua água doce.
           
Passando seus 63 anos de vida na ponte aérea entre Acre e Brasília, onde fez poesia, cinema e shows, compondo mais de 160 músicas, a maioria sobre sua região natal, Mapinguari vem surpreendendo e encantando as redes sociais do país e do exterior, mesmo durante a pandemia do coronavírus, com seu belo álbum “Amazônia Chama – Canto Manifesto”.

Com 12 músicas, que cantam, enaltecem, engrandecem, lamentam e choram boa parte da história contemporânea da Amazônia, o álbum do músico xapuriense vem sendo muito visualizado e apreciado em todas as plataformas de streaming para música digital (Spotify, Deezer, Apple Music e outras) no Brasil e em outros países. O videoclipe da sua música que fala do grande cacique “Raoni”, por exemplo, teve 34 mil acessos em pouco mais de uma semana após ser lançado no canal digital do Youtube.

O álbum puramente amazônico se divide em quatro blocos temáticos, cada um com três músicas, começando pelas belas “Raoni”, “Nambikwara” e “Cinza dos Índios”, canções inspiradas exclusivamente nos povos indígenas. No segundo bloco, tem as músicas “Bagaço do Mato”, “Queimada” e “Patativa”, que o cantor e compositor identifica como as canções que mais lembram sua floresta natal, também sofrida e maltratada nas últimas décadas, custando até a vida do companheiro Chico Mendes, assassinado em 1988 por defendê-la.

Já as canções “Enchente”, “Barqueiro” e “Boto” inundam os sentidos com o som das águas das nascentes, igarapés e rios, paisagens das mais expressivas das memórias amazônicas, como assinala o próprio músico.O último bloco evoca os modos de ser e fazer dos povos da floresta amazônica nas músicas intituladas “Seringueiro”, “Terra” e “Amazônia...a Deus”.

Edmilson Mapinguari diz que seus cantos ressoam lamentos, queixas de vidas subjugadas, violentadas. “Também são cantos de despedidas, de ausências e de perdas. Mas ressoam também rebeldias, protestos e lutas. Afinal, lutar justifica viver”, diz o cantor e compositor.

Quem ouve atentamente as 12 composições lindamente musicadas, tendo ao fundo os sons atraentes e encantadores dos rios, pássaros e animais da região amazônica, naturalmente transborda em emoção pela expressiva e bonita viagem que Mapinguari faz em sua obra musical regionalizada.

Para o músico Fernando Rocha, diretor e ator de teatro, além de crítico de música e cinema, Edmilson Mapinguari transparece mesmo, em suas canções, ser aquele menino que corria pelas ruas de chão de Xapuri, no interior do Acre, se banhando nos igarapés quase todo santo dia de sua infância liberta e feliz. 

“O menino ouvidor de histórias e causos, ao redor de qualquer pé de árvore, virou um exímio contador de causos e histórias. Sentar em roda e ouvir Edmilson é puro prazer. E, também, profunda emoção. Muitas vezes choramos as florestas destruídas, os rios contaminados, os companheiros perdidos nas lutas contra os poderosos”, assinala Rocha.

Para o próprio Mapinguari, o trabalho musical “Amazônia Chama” é o eco de um clamor que reverbera em sua vida há mais de 40 anos, com um “canto manifesto” das transformações nas paisagens e relações político-sociais das Amazônias, dos Brasis e do mundo.

“Aprendi com Davi Kopenawa, líder indígena Yanomami, que os cantos têm força e poder para manter o equilíbrio do nosso planeta, para impedir ‘A Queda do Céu”, diz o músico, ao ressaltar que as canções de seu álbum representam experiências que lhe tocaram, que fizeram vibrar nele a vontade de expressar dores, amores e pertencimento.

“Esses cantos ressoam lamentos, queixas de vidas subjugadas, violentadas. Também são cantos de despedidas, de ausências, de perdas. Mas fundamentalmente ressoam rebeldias, protestos, lutas. Cantemos, pois, para evitarmos o abismo, para desativarmos essa bomba relógio prestes a explodir, para que não viremos cinzas que sobram, depois que o fogo consome”, completa Mapinguari.

Ouçam as músicas clicando no link https://edmilsonmapinguari.hearnow.com


(*) Jornalista.



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