O CAÇADOR QUE CAÇA PARA RESSUSCITAR E FAZER VIBRAR A CIÊNCIA - Por Edinei Muniz

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Por Edinei Muniz 

Tudo começou numa tarde ensolarada de março de 1999. À bordo do avião da Varig, um 'Acreucho', conterrâneo de Plácido de Castro, cientista por talento e vocação, caçador implacável dos barrancos do Purus, viajava em direção a Rio Branco. Vinha de Porto Velho!

Mas não se trata de um caçador tradicional, daqueles que matam os animais. Caça para ressuscitá-los. 

O caçador, que não usa armas e sim instrumentos de escavações, ainda moço, seguindo as pegadas deixadas por Chandless e Manuel Urbano, que diziam tê-lo avistado, montou expedições e refez os caminhos. 

Procurou, procurou e procurou. Procurou nos livros e nos barrancos. Andou e andou! E finalmente o encontrou! O maior carnívoro das Américas está vivo! Para o progresso da Ciência, venceu a caça e o caçador. O caçador tem nome: Alceu Ranzi! E a caça também: É ele! É o Purussaurus Brasiliensis!

O Jacaré Gigante da Amazônia merece muitas linhas. Muitas! Muitas linhas! Afinal, são milhões de anos de história. Mas não se trata da história dos homens. Quando aqui chegamos, os Purussaurus já haviam se escondido nos barrancos do Purus. 

A história dele chama-se História Natural. E é contada por meio de genes vencedores e perdedores, processo batizado por Charles Darwin de seleção natural.

Deixemos o Purussaurus descansando nas margens do Purus e voltemos ao avião da Varig daquele março de 1999.

O caçador, um dos maiores paleontólogos do mundo, geógrafo formado nas primeiras turmas da Universidade Federal do Acre, amante das paisagens amazônicas, é do tipo que monta barraco para sentar-se na poltrona da janela do avião.

Naquele dia memorável, os olhos atentos do caçador, claro, da janela do avião, olhando para baixo, eram as suas armas. 

Naquele histórico vôo pelos céus da hiléia brasileira, prevaleceu uma velha máxima da Amazônia, que diz assim: 

"Na Amazônia de tantos mistérios, muitas vezes você não sabe o que está procurando. Mas é bom seguir procurando, sabendo ou não o que procura, posto que se os olhos estiverem atentos - bem atentos e treinados - é certo que algo novo será avistado". 

E foi o que aconteceu naquele dia que estremeceu o coração do caçador e, poucos dias mais à frente, estremeceria o coração do mundo científico.

Ao escanear do alto a paisagem ofertada por uma das janelas do Boing da Varig daquele março de 1999, Alceu Ranzi avistou alguns círculos enormes muitos metros abaixo. 

Eufórico, temendo perder a localização exata do local, procurou ao redor algum ponto de referência e marcou no relógio o horário do avistamento. Por sorte, andarilho como sempre foi em razão do sacerdócio científico, conseguiu, mesmo do alto, gravar na mente boas pistas para o  reconhecimento posterior do lugar. 

Na sua mente, instalou-se, de pronto, uma certeza: nada o impediria de tentar localizar o ponto exato do que avistara. O caçador queria sangue. O sangue da Ciência: a certeza!

Já em solo, ainda à bordo,  ligou o celular e começaram as articulações. Precisaria sobrevoar a área novamente, agora, à bordo de um pequeno avião, com autonomia suficiente para uma melhor identificação. 

Cientista respeitado, mesmo assim, ainda teve que vencer os céticos. Normal! Para a descrição que vinha ofertando, não seria fácil encontrar, ao menos de imediato, quem acreditasse na tese descrita por ele tão logo seus olhos avistaram os grandes círculos. Vencida a descrença, o avião foi devidamente fretado e no dia agendado decolou. 

À bordo, plenamente certo do que avistara, só havia agora um motivo para apreensão: a não localização do objeto. 

Não estou louco! Eu sei o que vi! Assim dizia o paleontólogo em conversa consigo mesmo.

Como a Ciência serve ao progresso e ao progresso Deus ajuda, bem marcada  do alto, a localização exata do imenso círculo desenhado no chão terminou em sucesso.

Alceu Ranzi, o caçador das Ciências, havia encontrado os misteriosos e enigmáticos geoglifos do Acre.

Os geoglifos do Acre são estruturas de terra escavadas no solo e formadas por valetas e muretas que representam figuras geométricas de diferentes formas. 

Esses recintos foram encontrados na região sudoeste da Amazônia Ocidental, mais predominantemente na porção leste do Estado do Acre, estando localizados em áreas de interflúvios, nascentes de igarapés e várzeas, associados em sua maioria ao Rio Acre. 

No Acre, foram identificados mais de 300 sítios arqueológicos do tipo geoglifo que estão compostos por 410 estruturas de terra, números que vem aumentando, devido ao desenvolvimento de pesquisas arqueológicas no Estado.

O velho caçador está de volta. Amanhã, voltará para o seu habitat. E mais uma vez sentirá o imenso prazer, que um dia já fez vibrar o coração de Euclides da Cunha, Chandless, Manuel Urbano e o dele próprio. 

Irá, em expedição científica, acompanhado dos seus, todos, de iguais méritos, refazer, no velho Rio Purus de tantas histórias, a expedição realizada nos anos oitenta por Marie Benchimol. 

Boa sorte, caçador!


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