NÃO É FESTA, SENHOR INTENDENTE! É REVOLUÇÃO! Por Edinei Muniz



Por Edinei Muniz 

Estamos nas primeiras horas do dia 06 de agosto de 1902. É madrugada! 

A pequena Vila de Xapuri, recentemente convertida pelos bolivianos em Mariscal Sucre, dorme à espera dos festejos da independência do país, marcada pelo libertador Simón Bolivar muitos anos antes.

Pelas águas barrentas do Rio Acre deslizam três canoas. À bordo, trinta e três homens e um chefe, Plácido de Castro. Não são convidados para a festa. A História tem outros planos. 

Uma pequena névoa, comum nessa época do ano, cobre as poucas barracas da Vila. 

Os tripulantes estão apreensivos, em poucos minutos, entrarão em Xapuri, desmontarão a estrutura de poder boliviano e escreverão seus nomes para sempre nos anais da história belíssima do nosso povo. 

O dia já está raiando. As três canoas finalmente chegam em terra firme. 

O grupo, falando baixo, recebe as últimas instruções do líder e divide-se em três pelotões. 

Cada grupo recebe uma missão estratégica e óbvia. A ordem é acordar e prender as três principais autoridades bolivianas. 

O chefe, aquele que seria meses à frente o gaúcho mais injustiçado que esse país já produziu -  e que pouco mais de quatro meses depois derrotaria não somente a Bolivia, mas também o imperialismo americano e o alheamento brasileiro - dirigiu-se à sede da intendência boliviana, na época, situada onde hoje encontra-se o Hospital Epaminondas Jácome. 

José Galdino iria até a casa de Alfredo Pires, onde residia uma outra autoridade boliviana. Antonio Moreira de Souza cuidaria do outro lado do rio. No caso, iria até a casa do português Augusto Maria da Rocha Neves, onde morava a terceira autoridade do comando boliviano na Vila. 

Às portas da municipalidade, o jovem Plácido, em tom firme,  decidido e áspero, chama por D. Juan Diaz Bullientes, o Intendente, subordinado de Lino Romero, que despachava na mesa de rendas (Puerto Allonso), muitas águas, muitas curvas e muitos barrancos rio abaixo. 

Bullientes, ao ouvir a intimação de Plácido de Castro, visivelmente enfadado pela bebedeira da noite anterior, ainda com trajes de dormir, abre a porta, e com a vista ofuscada pela claridade, afirma de modo ríspido, em espanhol: 

- "Caramba!... Es muy temprano para la fiesta! (É muito cedo para a festa!, em português). 

De pronto, e também de modo elevadamente ríspido e autoritário, Plácido de Castro retruca:

- Não é festa, Senhor Intendente! É REVOLUÇÃO!

Apanhados de surpresa, os bolivianos não conseguiram oferecer resistência. A única que houve veio do português Augusto Maria da Rocha Neves, que apoiava os bolivianos. 

Augusto Maria era um negociante de borracha e encontrava-se na região desde 1895, quando chegou nomeado pelo Governo do Amazonas para exercer o cargo de Prefeito de Segurança Pública. 

Em 1898, Augusto Maria chegou a ser acusado de comprar borracha com dinheiro falsificado. Sem ter como reagir, a valentia do português logo foi contida. Recebeu ordem de prisão.

No dia seguinte, diante do sucesso absoluto da operação, após os bolivianos assinarem o termo de rendição, diante de centenas de seringueiros e grande entusiasmo, Plácido de Castro declarou a independência do Acre. Mariscal Sucre voltou a ser chamada de Xapuri e começava alí a Revolução Acreana.

Após o ato, deixando na vila um forte contingente armado aos cuidados de José Galdino, Plácido de Castro desceu o Rio Acre e derrotou os bolivianos em vários seringais. 

Foi ganhando terreno palmo a palmo até finalmente chegar em Puerto Allonso onde a vitória tornou-se irreversível em 24 de janeiro de 1903.

A Revolução Acreana, em que pese os mais de quatrocentos mortos, não foi uma guerra comum, onde deslealdade e ódio raramente deixam de se fazer presentes. 

Foi um conflito poético, eivado de atos de bravura e lealdade por parte de Plácido de Castro e demais líderes. 

Não lutamos como brasileiros. O Brasil oficial nos ignorou e só se fez vencedor pelo fato de também ter sido derrotado por aqueles que ousaram, sem recuar, sem cair e sem temer, para, mesmo assim, serem chamados de brasileiros. 

A história dos bravos pioneiros, havendo ou não interesses econômicos permeando tudo, naquele contexto, não tinha como ser diferente. 

E como não tinha, foi a história do nosso povo. E dela motivos não faltam para termos imenso orgulho e respeito. 

Viva o Acre! Viva a Revolução de um povo que obrigou o Brasil a assumir a nossa paternidade!


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