"O rio não me trairá. Eu ficarei enterrado no seu coração" PAULO BENTES - Por Edinei Muniz

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Por Edinei Muniz

Há pouco menos de 42 anos, na semana em que se tudo tivesse corrido bem seriam comemorados os 40 anos de fundação da Academia Acreana de Letras e os 74 de assinatura do Tratado de Petrópolis, um fato inusitado - e por demais injusto - causou forte rebuliço na opinião pública culminando com a desonra de um importante escritor da Amazônia e o cancelamento dos festejos. Por dever de reparação, o fatídico episódio merece ser revisto.

Senta que lá vem a História...

O ofendido -- tal qual Fran Paxeco, mais um dos tantos que já foram vítimas da politicagem tupiniquim que assola o Acre desde o tempo de Manuel Urbano da Encarnação, que dizem ter sido o primeiro bandeirante a encantar-se com a beleza dos rios acreanos -- foi o escritor Paulo de Menezes Bentes, o literato que primeiro assinou a Ata de Fundação da Academia Acreana de Letras, fato ocorrido no memorável 17 de novembro de 1937.

Vejamos de quem falamos: quando Henrique Maximiano Coelho Neto, um dos maiores gênios da Literatura Brasileira, foi eleito, em 1928 -- pelo concurso promovido pela mais badalada revista literária daquele tempo (O Malho) -- o Príncipe dos Prosadores Brasileiros vencendo Monteiro Lobato, o escritor e político da Amazônia, nascido no Estado do Amazonas, Paulo de Meneses Bentes, naquele momento com 20 anos de idade -- e que, em 17 de novembro de 1937, com 29, fundaria a Academia Acreana de Letras -- integrou a lista dos intelectuais escolhidos à dedo pela revista para compor o corpo de jurados.

Naquele memorável concurso literário, tão imortal quanto as obras dos dois escritores que julgara, o jovem intelectual, que louvou o canto da 'Canarana da Beira do Rio' e a impertinência dos grilos riscando o silêncio da noite apagando a dureza dos dias na floresta, a mostrar, nas páginas das principais revistas literárias do país "O Outro Brasil', o do lado de cá,  votou em Monteiro Lobato. 

Após percorrer, com inegável brilhantismo os dias da sua mocidade,  como uma espécie de híbrido fértil entre a literatura e a política, há quatro décadas atrás, o autor de 'O Porongo', obra recebida pela crítica literária com aplausos vindos de notáveis como Carlos Drumond de Andrade, Gustavo Capanema, Levy Carneiro, Raul de Azevedo, Câmara Cascudo, Othon Costa, Nelson Rodrigues e tantos outros, doente e já próximo de completar 70 anos de idade, após ser convidado para participar da programação alusiva aos 40 anos da Academia Acreana de Letras, instituição que ajudara a fundar quatro décadas antes, resolveu julgar, agora não mais os gigantes da literatura brasileira, mas a si mesmo. 

Certo de que seria justo valorizar a cultura acreana por intermédio da sua obra e plenamente convencido de que é da memória que brota, irremediavelmente, o sentido poético da imortalidade, dias antes de pegar o avião da Cruzeiro em direção ao Acre, Paulo Bentes mandou confeccionar - ou ganhou de presente da Confederação das Academias de Letras, não importa - um busto em bronze com a sua imagem para ser devidamente instalada no lugar por ele escolhido, e trouxe consigo naquela que seria a sua última viagem ao Acre antes de falecer em dezembro de 1979, dois anos depois, oito meses após manifestar um dos seus últimos apelos pela Amazônia ao enviar carta ao ex-presidente João Figueiredo, que acabara de assumir, pedindo que olhasse com carinho pela região.

Chegando ao Acre, o local escolhido foi o jardim da antiga sede da UFAC, na esquina da Cearâ com a Getulio Vargas, onde hoje funciona o Colégio de Aplicação, como era da vontade de Bentes. 

Estava tudo caminhando bem, anunciava-se uma grande e justa homenagem, não apenas a Bentes, mas à  cultura acreana em si e eis que aparece o pró-reitor administrativo da UFAC dizendo-se apoiado numa decisão do Conselho Universitário e com a chancela do vice-reitor da época, José Fonseca, e na madrugada do dia da grande festa, sorrateiramente, arranca o busto do fundador da Academia Acreana de Letras.

Após o tremendo vandalismo literário praticado, como não poderia deixar de ser, formou-se a maior confusão e a festa foi cancelada pelo então governador Geraldo Gurgel de Mesquita. 

A Academia Acreana de Letras, contando com a bravura heróica do Garibaldi Brasil, ainda tentou reverter a "decisão". Mas foi em vão! 

Dizem os jornais da época - alguns sem credibilidade, já que foram de uma deselegância cavalar com o Dr. Paulo Bentes ao insinuarem que o mesmo visava autopromoção - que chegaram a ofertar outras opções para a instalação do busto, o que foi recusado tanto pelos imortais quanto pelo próprio Bentes. 

No meio da confusão, inconformado, e com toda razão, Paulo Bentes lembrou do velho Rio Torto que tanto amava e que o fez acreano tão logo bebeu os primeiros goles da suas águas mais de quatro décadas antes. 

E, poeta dos grandes que sempre será, eis que imortal, com o coração sangrando diante de tamanha injustiça, após preparar-se para lançar o busto no Rio Acre -- ato que só não foi consumado devido a intervenção do Garabaldi Brasil -- nos deixou a sua última poesia, um verdadeiro canto de amor ao Rio Acre, símbolo maior da nossa cultura, símbolo do nosso povo: 

"O rio não me trairá. Eu ficarei enterrado no seu coração" PAULO BENTES

Em seguida, Garabaldi Brasil completou: o busto é nosso! 

Estava certo o Garibaldi, o busto é nosso e deve ser, no próximo dia 17 de novembro, instalado na UFAC, como era da vontade e do merecimento de Paulo Bentes. 

De 1977 aos dias de hoje muita coisa mudou na UFAC. Hoje temos várias pracinhas e não custa nada instalarmos o busto do Bentes numa delas. 

O busto, após o episódio, ficou inicialmente aos cuidados de um dentista amigo do poeta e em seguida foi entregue a um dos membros da Academia Acreana de Letras. 

Vou conversar com o pessoal da Fundação Cultural e da Fundação Garibaldi Brasil para que, juntamente com a Academia Acreana de Letras e a UFAC, finalmente cheguem a um entendimento quanto à reparação de tamanha injustiça. 

Edinei Muniz

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