LAZARO (MENTINDO OU NÃO) APRESENTOU NOVA VERSÃO SOBRE O CASO ROSALINA EM 1955 - Por Edinei Muniz

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Por Edinei Muniz 

Era uma quarta-feira de início de verão no Rio de Janeiro. O ano de 1955 terminaria no dia seguinte. O prisioneiro, um dos mais antigos do Presídio Lemos de Brito, morador da cela 24, do primeiro corredor do terceiro andar - e que em poucas horas ouviria  os fogos do reveillon carioca naquele habitat pela décima primeira vez - seria o entrevistado do dia do repórter Fernando Presídio, do Jornal Diário Carioca. 

O entrevistado, um senhor de 46 anos, alto e forte, pele branca, já bastante amarelada pelos anos de cadeia, moderadamente calvo e de testa saliente, chegara ao local da entrevista com 60 anos de pena a cumprir e dois bárbaros assassinatos nas costas. Seu nome: Lazaro Ferreira Nunes.

A primeira vítima, que lhe rendeu trinta anos de cadeia, foi morta em 22 de julho de 1937, no Seringal 'Contente'. Chamava-se Antônio Alves de Lima e sucumbiu após ser alvejado por vários tiros de espingarda calibre 16, disparados pelo entrevistado, segundo o próprio, por vingança após ter sido agredido pela vítima dias antes. 

A vítima do segundo assassinato, pelo qual Lazaro somou mais trinta anos de pena, era professora formada e foi morta às oito horas e trinta minutos do dia 24 de novembro de 1941, com nove facadas, à caminho do Grupo Escolar 7 de Setembro, escola onde lecionava. Chamava-se Rosalina de Souza Silveira. 

A morte da Professora Rosalina abalou a sociedade da bucólica Rio Branco naquele início dos anos 40 e, tão logo o assassino foi ouvido no inquérito que apurou o caso, surgiu um terceiro personagem, um suposto jornalista, que não se tem notícias em qual jornal escrevia, chamado Praxedes da Silva, que acabou absolvido, abriu -se o chão, e sumiu após ser julgado. 

A versão oficial, que inspirou o amigo escritor, Antonio Stelio, a publicar o livro 'Rosalina Meu Amor', romance baseado nos autos que apurou o caso, diz que Lazaro e Rosalina não se conheciam pessoalmente quando do ocorrido. 

Vejam o livro aqui: 

https://www.estantevirtual.com.br/livros/antonio-stelio/rosalina-meu-amor/3669414565

Segundo consta no processo, Lazaro, que naquele 24 de novembro de 1941 encontrava-se preso à espera de ser levado a julgamento pelo primeiro assassinato, teria sentido algo estranho no coração ao assistir, dia após dia,  Rosalina passar pelas proximidades do Presídio Vicente Rao, que funcionava no local onde hoje encontra-se instalada a sede da Prefeitura de Rio Branco.

Analfabeto, e já completamente apaixonado, Lazaro, teria pedido ao "jornalista" Praxedes para que escrevesse cartas com declarações de amor à futura vítima. E também que as entregasse à destinatária, obviamente. 

Diz a versão oficial, que Lazaro teria narrado o sentimento ao Praxedes por meio de várias cartas de amor e que o tal jornalista, além de não entregá-las, voltava com cartas que dizia serem de Rosalina, onde os conteúdos indicavam que a moça estaria correspondendo. 

Ainda segundo a versão oficial, carta vai e carta vem, lá pelas tantas, Rosalina fica noiva do Capitão Springer, da Polícia Militar. 

Na pequena Rio Branco de muros baixos daquela época, com o presídio instalado no coração da cidade, a notícia logo chegou aos ouvidos de Lazaro, que sendo corno da própria fantasia -  alimentada por Praxedes, já que a pobre vítima nada sabia - sentiu-se traído.

Tão logo soube do casório que se aproximava, Lazaro inquietou-se. Andava de um lado para o outro da pequena cela, esmurrava as paredes que o aprissionavam e não demorou para que o ciúme o levasse para o desejo fatal. Lazaro queria sangue! 

Naquele tempo, segundo mostram os arquivos do Jornal O Acre, editado pela Imprensa Oficial do Território Federal do Acre, não eram muitos os internos do Presídio Vicente Rao. Inaugurado com pompas em final de agosto de 1935 pelo Interventor do Território, Manoel Martiniano Prado, nunca abrigou mais do que 35 internos. Contando com poucos reeducandos, a utilização dos mesmos em trabalhos externos era fato bastante comum na época. 

E foi o que ocorreu. Naquele 24 de novembro de 1941, a inocência da pobre Rosalina teria um encontro fatal com um ciúmes doentio e ilusório de um perigoso vizinho reeducando - também provocado por engano devido às maluquices do Praxedes da Silva -  nas proximidades do local onde hoje encontra-se a Praça Plácido de Castro, para onde, de posse de terçado afiado houvera sido conduzido Lázaro para a realização de trabalho externo de capina.

Era um início de manhã, terçadada aqui, terçadada alí, suor escorrendo pela testa saliente, na cabeça de Lazaro, ardia o calor do sol, que já andava alto, já se passava das oito. E ardia por algo mais: o ciúme enlouquecido que sentia por Rosalina. 

Lazaro, que já era uma fera perigosa em condições normais de temperatura e pressão, naquele dia, já acumulava várias noites em claro, insone, inquieto e amargurado. Abaixava-se num ritmo frenético para utilizar o cambito, puxava o capim, dava duas ou três terçadadas e lá e cá levantava a cabeça girando o pescoço à procura da sua vítima. Em minutos, a sua honra, fantasiosamente ofendida, estaria lavada com sangue.

Há poucos metros da fera  -- que segundo informações prestadas por irmãos da Rosalina pouco depois da publicação da entrevista de Lázaro ao Jornal Diario Carioca, teria partido o padrasto ao meio com um machado --, a inocente Rosalina preparava as ferramentas pedagógicas e iniciava seu rotineiro percurso matinal do local onde morava, das proximidades do Colégio de Aplicação até o Grupo 7 de Setembro, localizado à época próximo do Palácio Rio Branco.

E Rosalina parte para a aquela que seria a sua última caminhada. Ao interceptá-la, Lázaro larga o cambito e, cego pelo ciúmes, já plenamente convertido em ódio mortal, avança, sorrateira e abruptamente, em direção à pobre moça. E, sem nada dizer, Lazaro crava o facão no peito de Rosalina. 

Rosalina, após o primeiro golpe, conforme informaram os irmãos, ainda tentou correr gritando por socorro, tendo sido avistada pela mãe que encontrava-se na janela, mas logo foi alcançada por Lázaro, que consumou o ato após  desferir,  enfurecido, mais oito facadas. 

Após a barbaridade, Lázaro foi imediatamente preso pelos carcereiros que lhe faziam guarda e por muito pouco não foi linchado. A notícia logo se espalhou e os moradores da pequena Rio Branco, pensativos, demoraram para pegar no sono naquele dia. 

Lázaro, sob ameaças constantes de linchamento, permaneceu onde já se encontrava, ou seja, preso. Veio o inquérito, apareceu a versão de Praxedes, seguiram-se os procedimentos processuais de rotina, e em 26 de janeiro de 1943, um dia após ser julgado pelo primeiro homicídio, cujo processo encontrava-se parado desde o final de 1937 e, no espaço de dois dias, Lazaro acumula na ficha carcerária 60 anos de prisão, pena máxima no primeiro e pena máxima no segundo homicídio.

A ENTREVISTA DE 30 DE DEZEMBRO DE 1955

Segundo a narrativa do repórter Fernado Presídio, Lazaro mostrou-se bastante emocionado já nos minutos iniciais da conversa e relatou fatos relacionados aos dois crimes que cometera no Acre. 

Segundo informou Lazaro, o mesmo teria perdido o pai aos 19 anos e daí em diante ficou sozinho com a mãe. Poucos meses depois, após ir trabalhar numa fazenda, teria conhecido uma pessoa, classificada por ele como ex-cangaceiro. 

A pessoa era Antonio Alves de Lima, a mesma que mataria em 1937 e a quem classificou como chefe de uma quadrilha de assaltantes.

Lazaro disse ter se juntado ao bando do Antonio Alves, que teria o iniciado no mundo do crime. Tempos depois, já do bando, Lázaro teria tentado furtar alguns pertences de Antonio, no que foi surpreendido e espancado violentamente. Visando vingar -se do ato, o matou dias depois.

Após o referido crime, Lázaro teria se apresentado às  autoridades e confessado o crime. Teria, segundo ele, permanecido preso por poucos dias, sendo solto logo em seguida por intermédio da influência de políticos. Disse que após ser solto voltou a perambular pela cidade sem que fosse  incomodado pela polícia.

Em seguida, Lazaro teria arranjado um emprego e, já tendo feito progressos na cidade, foi apresentado a Rosalina, que era filha do Secretário-Geral da Prefeitura, cargo similar ao de Chefe da Casa Civil dos dias atuais. 

O namoro teria começado logo em seguida e pouco tempo depois teria vindo o noivado. Segundo afirmou Lazaro, o fato era de conhecimento público e teria durado por volta de um ano, até Lazaro começar a desconfiar do amor de Rosalina.

A desconfiança, segundo ele, foi aumentando à cada dia, até que, não tendo mais como suportar, munido de uma faca, teria matado a jovem moça. 

Poucos dias após a entrevista, quatro irmãos de Rosalina compareceram ao Diário Carioca e negaram a versão de Lázaro.

Quando Lázaro concedeu a referida entrevista, a pena de 60 anos já havia sido comutada para 30 por meio de um Decreto assinado por Getúlio Vargas. Daí em diante, o paradeiro de Lázaro tornou-se incerto. 

No próximo capítulo, mostrarei as contradições de Lázaro.

Edinei Muniz





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