Relíquias dos anos da invenção da roda

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Por CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO (*)
Naqueles dias, caminhávamos à toa, em delírio esfuziante, absortos e em observação plena direcionada à roda da vida a girar levemente, vagarosamente, indolentemente, mas ininterrupta e precisa e cruel e contínua, embora não o percebêssemos. Tínhamos todo o tempo do mundo e a vida sorria às gargalhadas, enquanto volteávamos na praça pública sonhando com a felicidade de braços dados ou não. Éramos felizes, sim, apesar dos dias não serem os melhores em se tratando da pacificidade do mundo aos nossos pés. Como sempre, as guerras. Ah, a crueza do Vietnã!
Abismados ante todas aquelas novidades que surgiam e ressurgiam a cada esquina, a cada momento da vida, caminhávamos céleres ou vagarosos, a depender da estação do ano. Embebedados pela história do tempo envolvente, ficávamos boquiabertos em face do domínio da história contemporânea por parte de uma professora de descendência libanesa que falava sobre Israel, Índia e China com uma destreza impressionante, como se lá vivesse. Também o outro professor, este de origem portuguesa, sabia tudo, desde os hebreus aos visigodos e às carnificinas ocorridas nas savanas canadenses de outrora.
Mais tarde, depois do futebol de grande qualidade, em casa, perguntas dilacerantes eram feitas ao vazio das consciências tão vagas:
– É este o mundo que os nossos sábios ancestrais nos deixaram por herança? Quem organizará toda essa bagunça? A paz será possível algum dia? Quando, enfim, virá essa tal era de aquário da bonança e da prosperidade? Valeria à pena, realmente, levar a vida tão a sério?
Vinha a noite, então. Depois, era chegado o período da folga semanal. Os sábados e os domingos acercavam-se a todo vapor para a imensa alegria de alguns ou de muitos. Tudo o que ouvíamos no colégio das freiras era guardado nas pastas de couro cru, em sua maioria, posto que, àquela época, ninguém ainda portava mochilas coloridas e muito menos bolsas Victor Hugo ou Louis Vuitton. Nem em sonho.
– Então, vamos aos folguedos! – Era o que pensava o pretenso poeta.
Os grandes bailes da feliz cidade eram organizados pela sua pequena e aguerrida burguesia dos confins do mundo, já na subida rumo aos Andes. Enquanto os mais abastados rodopiavam ao som de conjuntos musicais de uma qualidade considerável, os demais, nas janelas do clube, apenas se acotovelavam para apreciar os pares dançantes.
O menino, entre sossegado e curioso, estava ali pelo meio, aos trambolhões, à janela, com a mãe e a avó materna ranzinza. Segundo elas, aquelas pessoas que, do lado de fora, apreciavam os pares dançantes no salão, estavam participando do sereno da festa. Era assim mesmo. Talvez em algum momento ainda seja, quem sabe, apenas na cabeça e nas vertigens dos sonhadores.
A cidade princesa sempre foi sutil e arrebatadora. Como diz a bela Ofélia moça distinta e prendada do ramo das leis:
– Eu saí de Xapuri, mas Xapuri não saiu de mim.
Um dia, enfim, o moleque maquinador, aí pelas dezesseis voltas, fez a estreia nos salões requintados entre os burgueses rodopiantes e bem trajados, apesar de não ser um deles. Nunca. Nem era tão necessário. Talvez, por ser filho de gente pacata, mas ordeira, de lá ele nunca foi expulso. Muito pelo contrário, algumas vezes, fez par com moças que debutavam, ou com algumas que se candidatavam a rainha das flores, no grande baile do mês de maio. Havia efervescência cultural e as ocorrências sociais eram sonhadas até que chegasse o período de Momo e o rancho carnavalesco, quando uma turma grande saía às ruas do meu pequeno principado usando máscaras e trajes muito apropriados para o período.
Depois, viriam os quarenta dias da quaresma até o grande baile de aleluia, o enterro do carnaval. (Somos também brasileiros e tudo é justificativa para uma farra megalômana.)
Foi por este tempo que ele passou a sofrer as primeiras dores do amor infanto-juvenil. Ficou apaixonado por uma meia dúzia das ninfetas, ao mesmo tempo. Eram muito belas e provenientes de uma mistura étnica entre sírios, libaneses, portugueses e nordestinos do Brasil. Como escreveria mais tarde o poeta, bonitas por natureza.
Todavia, apenas uma, não tão bela, houve por bem conceder-lhe a graça do seu querer. Foram, sim, felizes, por uma longa semana, ou duas, ou três. Depois, veio a outra, bela e sensual, com quem um namoro quente foi engatado por uns dez meses. Era um tempo de boas colheitas naquele sertãozinho íntimo e úmido.
Os bailes foram ficando, talvez, mais empolgantes. Ia, agora, de braços dados com a namorada prazenteira e com a fortuna – a tão comentada sorte – sonhando com a delícia que poderia ser estar ao lado das outras, apenas uma por vez, em cada folguedo, é óbvio. Tornara-se, já, um volúvel cheio das regalias de quem é, antes, bastante simpático, bem cortês e pouco sedutor.
O soldo magro, de início, só permitia a ele a aguardente de cana em forma de caipirinha. Não era o crepúsculo, mas a alvorada dos deuses. Coisa boa demais da conta.
Daí, o salário aumentou e uma paixão imorredoura se abateu sobre o rapazola. Havia uma bebida de gosto imbatível elaborada a partir da cevada. Dela ele se enamorou e passou a consumidor pelo resto dos dias que ainda hão de vir. Que assim seja!
Gente da mesma idade sempre pensa melhor que qualquer mais velho. Esse povo ultrapassado e passado na casca do alho diz estar sempre com a razão; só que com a razão deles. Nós, os mais novos, vivemos um mundo novinho em folha, que não permite o ideário retrô desses que nasceram há um século. Cada qual no seu tempo. Eles já tiveram o seu período de contestações e maluquices. Deixem-nos fazer das nossas.
Pois bem. Pai, mãe e avó desaconselhavam certas companhias. Mas os pais de todos tinham o rapazola por um garoto de boa índole. Os responsáveis pelo aprendiz de poeta gostavam dos filhos do padeiro, dos do vereador, dos do caixeiro, dos do seringalista vizinho, e assim por diante. Assim, uma turma boa foi formada.
Na escola, haviam as discrepâncias de nível de conhecimento, posto que uns haviam se adiantado. Mas no futebol, metade jogava alguma coisa e a outra metade era formada por pernas de pau.
A idade de todos era mais ou menos a mesma. Foi assim que o grupo foi se acercando de uma mesa de refrigerantes, nos primeiros dias. Esta, em seguida – e não se passaram semanas – se tornou uma rodada de bebida destilada oriunda do país vizinho. Só no outro dia foi que apareceu a cerveja.
Um dia, então, junto com os demais da turma, meio desconfiado, o aprendiz de feiticeiro, foi a um ensaio. É que a filha do prefeito – belíssima! – queria que todos aprendessem a dançar.
Se as coisas iam bem, agora tudo melhorara muito mais. Beijaram-lhe a boca e ele se tornou poeta, numa alusão a Paulo César Pinheiro.
Quanto júbilo! Eram aqueles tempos de alegria e êxtase.
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(*) CLÁUDIO MOTTA PORFIRO é escritor, autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE. Membro eleito da Academia Acreana de Letras, Cadeira 18.


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